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Opinião
A Casa da Padroeira

Leonardo Dantas Silva
Escritor e historiador

Publicado em: 16/07/2020 03:00 Atualizado em: 16/07/2020 06:12

O topônimo Boa Vista surge entre nós em 1643, quando da construção pelo conde João Maurício de Nassau de sua casa de recreio, chamada inicialmente de Casa da Bela Vista, erguida em terreno por ele adquirido à Companhia das Índias Ocidentais, localizado na cabeceira da ponte sobre o Rio Capibaribe que ligava a cidade Maurícia ao continente.

O Alcácer da Boa Vista, como o denominava Gaspar Barlaeus (1647), era um “local aprazível, alegrado também por jardins e piscinas”.

Com a expulsão dos holandeses, em 1654, foi a Casa da Boa Vista doada à ordem carmelita para que nela instalasse o hospício do Recife. Em carta dirigida ao Príncipe Regente, em 1674, comunicam os “religiosos moradores no convento do Arrecife de Pernambuco” que “passa de sete anos que estão moradores naquele lugar” e terem dado início à construção do seu convento e instalação de uma pequena comunidade “em terras do Arrecife”.

A comunidade de carmelitas tinha entre seus primeiros religiosos o frei Francisco Vidal de Negreiros, filho do mestre-de-campo André Vidal de Negreiros, então no governo da capitania de Pernambuco.

Em 1679, como se queixavam da situação de insalubridade da Casa da Boa Vista, vieram receber os carmelitas do Recife, em 5 de maio daquele ano, uma área com 100 braças de terra de salgado, isto é, de terras alagadas pela maré alta, em torno do primitivo hospício, para nelas construir algumas oficinas e o seu quintal.

Nas terras anteriormente doadas, haviam os frades construído o seu primeiro convento, com uma capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro e uma senzala.

Padeciam os frades de grande desconforto na primitiva Casa da Boa Vista, quando o capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos, senhor do Engenho São Francisco da Várzea, casado com D. Catarina Vidal de Negreiros, filha do governador André Vidal de Negreiros, veio em auxílio das obras do seu cunhado, frei Francisco Vidal de Negreiros.

Inicialmente, propunha-se o benfeitor a assumir todo o ônus de construção da capela-mor de uma nova igreja, a ser erguida nas proximidades da primitiva. Para isso, comprometeu-se em escritura pública, de 18 de agosto de 1685, a construir às suas custas a capela-mor da nova igreja tendo por orago Nossa Senhora do Monte Carmelo, em troca do direito de ter sua sepultura naquele local, juntamente com sua mulher e seus herdeiros, bem como alguns sufrágios por sua alma.

À frente dos trabalhos continuava Antônio Fernandes de Matos, que veio a falecer em 1701. As obras, porém, arrastaram-se até 1767, data inscrita em um medalhão, no seu frontispício do templo, abaixo do nicho da padroeira.

A basílica possui três capelas e seis altares, cada um com arquitetura particular e distinta, com ornamentação de talha e todos de branco e ouro. O interior da basílica é de grande riqueza artística, com as colunas salomônicas da balaustrada torneadas em jacarandá, o mesmo acontecendo com as tribunas, as grades do coro, os altares laterais e o arco cruzeiro, que obedecem ao estilo D. João V.

A capela-mor profunda, em estilo rocaille, toda em talha e dourada com desenhos acânticos e nervuras, é obra de cerca de 1780, possuindo, desde o século 19, uma abóbada ogival geminada, da altura da cornija da nave, com óculos abertos para o exterior, através dos quais penetram os raios do sol.

O seu altar principal, totalmente revestido por talha dourada, é dominado pela imagem, em tamanho natural, da Virgem do Carmo, co-padroeira da cidade do Recife (1909), cercada por anjos e ladeada pelas imagens dos profetas Elias (com o jarro) e Eliseu (com uma espada e uma igreja). Imagem que, segundo a tradição, teria vindo de Portugal para Pernambuco anos antes da invasão holandesa (1630).

No dia 16 de julho, feriado municipal no Recife, os devotos da Virgem do Carmelo comemoram com grande festa o dia da co-padroeira da cidade do Recife, geralmente antecedido de concorrido novenário.

A devoção a Nossa Senhora do Carmo é uma constante na vida pernambucana, como bem se comprova em uma parte considerável da população recifense que ostenta no pescoço o seu escapulário, como nos faz recordar o poeta João Cabral de Melo Neto.

Nossa Senhora do Carmo

Que, se milagres não fazes,

pelas terras desse céu,

este escritor recifense,

sem porquês, segue-te fiel.


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