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Opinião
A Praça São Pedro não estava vazia e o papa Francisco não estava só

Carlos André Silva de Moura
Docente da Universidade de Pernambuco. Pós-doutor em História.

Publicado em: 01/04/2020 03:00 Atualizado em: 01/04/2020 09:16

Em um dos atos mais emblemáticos do seu pontificado, no dia 27 de março, o papa Francisco celebrou uma missa, com a concessão da benção Urbi et Orbi, restrita à Páscoa, ao Natal e ao início dos pontificados, para uma Praça de São Pedro vazia. No entanto, o silêncio daquele espaço foi apenas em relação aos números. Em uma mensagem com posicionamentos firmes e necessários para o momento em que o mundo contemporâneo enfrenta a maior pandemia, aquele local estava lotado de esperança e o desejo por dias melhores, direcionados de várias localidades.

Durante a homilia, Francisco destacou os ensinamentos que a pandemia poderá proporcionar à atual geração, com reflexões sobre os aspectos egoístas que dominam a política no tempo presente. Em um mundo, que na atualidade discute sobre as possibilidades entre salvar a economia ou as vidas, o argentino demonstrou a nossa fragilidade de perceber que estamos em um mesmo barco, mas que neste instante, todos estão “frágeis e desorientados, mas, ao mesmo tempo, todos [são] importantes e necessários, todos [são] chamados a remarem juntos”.  

Em uma Itália devastada, com números aterrorizantes de mortes diárias, a mensagem do eclesiástico demonstrou a necessidade de pensarmos coletivamente. Minimizar as mortes com justificativas direcionadas às idades, ao estado de saúde das vítimas ou resumir os acontecimentos apenas a números, demonstra que pandemias anteriores não nos ensinaram o que era necessário. Talvez continuemos com o mesmo discurso de legitimar a escolha de quem morre, como foi feito durante a peste negra, que entre 1343 e 1353 dizimou um-terço da população, ou mesmo a gripe espanhola no início do século 20.

O ato do papa Francisco ultrapassou a sua posição como líder da Igreja Católica Apostólica Romana. Pode-se considerar que naquele instante, além de um eclesiástico, discursou um ser humano consciente de sua importância no cenário internacional e preocupado com vidas, com os profissionais da saúde e com os rumos políticos no mundo. Também discursou um político, representante de Estado, que cobrou medidas que possam salvaguardar os menos favorecidos e a população vulnerável, antes de se pensar em questões materiais.

A nossa geração será marcada por decisões tomadas nas próximas semanas. Precisamos compreender que sobrepor os números do mercado a vidas salvas a partir do isolamento social é reconhecer que já estamos mortos enquanto humanidade. A dor de uma mãe, a perda de um filho ou a ausência de uma avó não pode ser menor que as preocupações financeiras, uma vez que esta, com muito empenho e ética, poderá ser resolvida com o tempo. Em uma Praça de São Pedro em silêncio, a voz de Francisco ecoou pelos quatro cantos do mundo, com a convocação de cristãos e não-cristãos, para uma luta conjunta, uma vez que “ninguém se salva sozinho”.    

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