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Opinião
Sou personagem de Conrad

Raimundo Carrero
Membro da Academia Pernambucana de Letras e jornalista

Publicado em: 30/03/2020 03:00 Atualizado em: 29/03/2020 21:53

No princípio, era a sensação de entrar num avião sem saber aonde ir  sem poder voltar.     

Agora, diante de um mundo cruel, escuro  e exterminador com um vírus vigilante e ativo que pode nos atacar a qualquer momento, estou me sentindo personagem de Conrad, a frequentar as ações e as páginas do romance de Joseph Conrad, Coração das trevas, revivendo o domínio férreo dos belgas sobre o Congo. Este romance, espero que todos conheçam, conta o terror espalhado sobre o povo do país africano, então chamado de Estado Livre do Congo, propriedade privada do rei Leopoldo II. Em texto recente, o escritor Bernardo Carvalho afirma que a partir de 1897 começam a circular na imprensa inglesa informações sobre as atrocidades cometidas pelos brancos em nome de uma  "missão civilizatória" no Congo Belga. Para este rei, o povo dali precisava se educar e se livrar de uma cultura bárbara.  Assim foi nomeado o impiedoso Kurtz, que agiu com incrível mão de ferro. torturando o povo, psicológica e fisicamente.  Este governo de Kutz  serviu de motivo para o filme Phanton, escutando as valquírias, o hino nazista sobre os mortos e sobre os que vão morrer.

O que quero dizer é que o mais grave de tudo é a impotência. Ficar em casa é o primeiro e decisivo passo. Evitar o contágio. Sobretudo e acima de tudo. Ficar em casa exige mudança de hábitos. Mas fique e imagine que você pode contaminar um ente querido.

Todos devem ter visto a solidão de Cristo e a solidão do papa na celebração do Vaticano. Um momento extremamente belo, grave e agônico. Um momento de Divino, sobretudo para nós que acreditamos no Divino e acreditamos Nele. Mas a imagem da solidão foi extremamente devastadora.

Incrível ver o papa cercado de silêncio e de abandono, em meio a um vazio de deserto, caminhando em direção ao Senhor Morto. Morto fisicamente porque está sempre vivo, vivo em nós, disposto a nos ajudar.

Personagem de Conrad, preparado para enfrentar Kutz, o carrasco do meu povo, com a ajuda do Divino, cercado de solidão e de esperança. A cabeça erguida para dizer que não fiquei de braços cruzados. Sem saber em que rio estava navegando, aonde chegar e onde ficar. Mais do que nunca estou convencido de que a literatura é "Um grito de solidariedade", como atestou Antônio Cândido, de braços dados com os humilhados e ofendidos deste mundo.

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