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Opinião
Os nascidos em tempos líquidos - tatuagem I

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 24/03/2020 03:00 Atualizado em: 24/03/2020 06:13

Desde o término do século 20 e já na segunda década do atual, os jovens que nasceram na nossa sociedade líquida e sujeita a rápidas transformações refletem no corpo e na mente esta situação. Reconheço que a juventude de hoje não visa aquilo que desejávamos ser quando nasci. Na época atual os desejos estão dirigidos para o consumo e o narcisismo. Desconheço qualquer teoria psicológica, psicanalítica, religiosa, antropológica ou médica que apresente uma explicação conclusiva e final para a tatuagem.

A tatuagem é um fenômeno global. Não existe nação na Terra que não a conheça. Apesar de ser uma forma de arte efêmera (que finda junto com seu suporte, por morte do corpo), ela vem acompanhando a humanidade há milênios e não apresenta absolutamente nenhum indício de que irá sair de moda, aqui entendida como práticas que regem, de acordo com o gosto do momento, a maneira de viver, de vestir, etc.  Considera-se que o seu voltar à difusão no mundo ocidental é um movimento do ser simbólico-social, que supera o instinto de autopreservação. Os temas, desenhos e cores das tatuagens são infinitos e variam tanto quanto as personalidades—dos tatuadores e tatuados. Em suma, as motivações são inúmeras, e não há uma forma definida ou percurso que explique o desejo e sua efetivação na realização, evento a princípio antinatural (biologicamente).

Até muito pouco tempo atrás, a tatuagem estava associada à marginalidade e ao comportamento de risco, como também às classes socioeconômicas mais baixas, à prostituição e, finalmente, ao crime.

Entretanto, lentamente, a prática passou a ser adotada por artistas da música, do cinema, por jogadores de futebol, chegando, por fim, às pessoas comuns. Algumas estatísticas apontam que atualmente um em cada cinco americanos possuem alguma tatuagem no corpo (The Harris Poll – realizada em 2012 junto a 2016 adultos).

Porque as pessoas se tatuam?

As justificativas podem ser as mais variadas, assim como os desenhos utilizados, entretanto, uma coisa é certa: as tatuagens têm a função de modificar a autoestima, ou seja, as marcas sobre o corpo oferecem a quem as utiliza um “poder” ou uma distinção de seus semelhantes. Nesse sentido, é possível que elas se assemelhem ao papel dos amuletos junto ao imaginário humano que, quando carregados, supostamente transmitem força, coragem e determinação.

Além disso, a tatuagem igualmente pode servir para que as pessoas se sintam mais atraentes, ou seja, chamam mais a atenção em meio a um grupo. As pessoas tatuadas apresentaram os maiores desejos de extroversão (comportamento da pessoa que não direciona sua energia psíquica para o interior, sendo mais aberta, sociável e confiante, adequando-se ao seu grupo e espaço), além do desejo de se sentirem únicas e exclusivas.

Conclusão: independentemente de se gostar ou não de uma tatuagem, o que percebo através de minha experiência clínica é que as pessoas que se tatuam, na verdade, o fazem nos momentos de muita angústia ou até de demasiado sofrimento pessoal, decorrente de algum episódio marcante na/da sua vida. Tenho observado a recente adoção da tatuagem pelas pessoas do sexo feminino, fato que também é, até onde sei, inexplicável.

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