Diario de Pernambuco
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Opinião
O Golem Controlado

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 13/03/2020 03:00 Atualizado em: 13/03/2020 10:31

O Golem na mitologia hebraica é um ser feito de barro à imagem do homem, criado para a proteção e realização de trabalhos braçais. É um ser com uma força inimaginável, que faz tudo o que seu criador manda. O Golem precisa ser controlado, por uma única razão, sua força pode destruir tudo!

Assim são os dados disponíveis em nossa sociedade. Conjunto de informações com força descomunal, estruturados e não estruturados por algum “dono” (que os armazena e/ou trata) e os faz “andar” com as próprias pernas na busca de novos caminhos. Os dados são isso, “seres” inanimados, mas vivos e latentes em todos os negócios.

O Golem, isoladamente, é “tolo” e inconsciente de sua força. O seu poder cresce sempre, a cada dia, cada vez que mais “barro” – dados - são armazenados, e essa força, se não bem comandada ou controlada, pode produzir catástrofes.

Penso, trazendo essa metáfora para os tempos atuais, que o aumento no volume da informação não é o problema/monstro de nossa sociedade. O monopólio, manuseio e tratamento deles sim, é o problema. Com a tecnologia e o aumento exponencial da capacidade de armazenamento e processamento desses dados e dessas informações, vivemos uma espécie de “Golem Digital” que sim, terá pernas próprias para andar mais rápido com a inteligência artificial e machine learning.

Por isso, com a vigência da L.G.P.D. no Brasil, os dados deverão ser cuidados. O setor educacional, de seguros, de saúde, de tecnologia, hoteleiro, de marketing, apenas para citar esses exemplos, deverão cuidar de seus processos internos de alimentação de seus Golens.

Tenho notado, a partir de consultas que me são enviadas, uma enorme confusão das pessoas em relação ao como poderão controlar seus “Golens”? Essa confusão advém da fragmentação do conhecimento em relação ao armazenamento e tratamento de dados (nos negócios, no meio jurídico e nas tecnologias).

O que pretendo dizer com isso é que as soluções de controle e gestão de dados apresentadas pela grande maioria dos agentes envolvidos padecem de uma falta de compreensão estratégica, quanto ao como controlar esse “monstro”, por não saberem do que ele é feito e como é alimentado em seus negócios.

Explico. Os dados em todo ambiente organizacional alimentam o “Golem” através de processos físicos, legais, de tecnologia, de cultura organizacional a todo instante, por todos, em todos os lados e de toda forma. Não me arrisco a afirmar que a imensa maioria das empresas, não sabe quando, como, onde e por que os seus dados são armazenados.

Esse não saber é o que alimenta o risco em relação à proteção de dados pessoais.

O fato é que a aproximação da vigência da LGPD está “animando” os mercados jurídicos e de tecnologia com propostas caríssimas que não atacam o problema da efetividade na gestão dos dados, na localização do onde, como e por que; e na construção da modificação da cultura organizacional voltada para atender aos princípios e fundamentos inspiradores da gestão de dados pessoais físicos, “inclusive nos meios digitais” (art. 1º. Da LGPD).

Com isso, poderemos ter, em breve, a partir de agosto, grandes sistemas de proteção de dados construídos e pagos a preços caríssimos, “Golens” aparentemente controlados, com verniz de segurança, mas na verdade, novos sistemas gigantes sustentados com pés de gnomo, que não darão o efetivo equilíbrio, controle e proteção.

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