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Opinião
De repente... o mundo mudou

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 17/03/2020 03:00 Atualizado em: 17/03/2020 08:32

O rapaz que traz encomendas, não o carteiro, que esse não mais existe, as cartas chegam pelo computador ou por outros bichos semelhantes – vem de moto, apita e, como eu viesse sem me apressar, perguntou: a senhora está bem? Pergunta surpreendente, de parte de alguém que eu nunca tinha visto antes. Respondi que sim, estava bem. E ele: carinhoso, se cuide, fique em casa, só saia por uma necessidade. Seja. Agradeci. E logo as palavras dele me remeteram ao que me falaram, por e-mail, filhos e amigos, aqui e além-mar: mãe não saia de casa, ou querida, se feche em seu terraço, em seu jardim, se cuide.   E eu na rede, entre roseiras vermelhas e o canto dos sabiás, lendo um romance de Charlotte Bronte, essa inglesa genial e intitulado Vilette: um extraordinário retrato da Inglaterra de seu tempo, quase um manual sobre a Educação, sobre saber-viver, sobre as relações de amizade e de amor que deveriam unir os humanos.

Mas agora: como viverão os outros adultos que ultrapassaram os sessenta (faixa de risco) e que nunca descobriram o prazer e alegria da leitura, e que não vão poder se reunir, ir ao cinema, sair de casa Mas eis que de repente, não mais que de repente como dizia o querido Vinicius, as pessoas estão se interessando por aquelas outras que estão dividindo nosso aqui e agora, posto que todos ameaçados por essa coisa inesperada, desesperadora, que as mídias não deixam de comentar.

E nesses comentários, surge a palavra sábia, consciente, do secretário de saúde (eu ia dizer ministro mas parece que não é bem o caso) colocando os pontos nos ii, alertando, aconselhando, proibindo abraços e apertos de mão (atenção, não dê mau exemplo, senhor presidente, digo eu) sobre o que diz respeito a essa pandemia que está em todas as bocas. E sobretudo falando não apenas como um técnico, um cientista, mas como um ser humano capaz de compartilhamento, de simpatia (do grego, sofrer com alguém).

E em meio ao medo e às regras de comportamento, a voz tranquila de Guga Chacra, correspondente da Globo em Nova York. Naquele programa, em que várias pessoas comentam a atualidade: esse repórter mostrava sua tristeza quando se assinalou a necessidade de se proibir o convívio entre crianças e seus avós. E eu, coruja mas nem tanto, pensando em como explicar a Pietra, três anos, que não vai mais ter cachorro-quente depois da escola, na casa da avó. Enquanto isso, na telinha, o rosto cansado do papa, as mortes tantas, imagens das ruas desertas em Roma, Veneza, Paris, Barcelona. A mensagem de dois de meus amigos, que há quinze dias vieram almoçar com a gente se despedindo, felizes, para realizar pesquisas de Pós-Doutorado na França: “Ontem só conseguimos comprar um pedaço de queijo e um pão que ninguém queria.” E nossa pergunta perplexa e angustiada: como chegamos até aqui e o que fazer?

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