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Opinião
A Peste na Busca de Sentido

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 20/03/2020 03:00 Atualizado em: 20/03/2020 07:26

Nesses tempos, impossível afastar da memória Albert Camus (A Peste), Victor Hugo (Os Miseráveis) e Viktor Frankl (Em Busca de Sentido). Esses três livros, entrelaçados em meu inconsciente e atravessando meu consciente, induzem reflexões para além dos próprios enredos, como se eu fosse personagem, com o advento da Covid-19, de um quarto livro: O Brasil do Século 21.

De uma hora para outra, a fala de alguns na incredulidade e de outros no apocalipse, fazem bater à minha porta uma dura realidade e dúvida, sobre qual seria O Caráter Nacional Brasileiro? Para citar outro autor querido, Dante Moreira Leite. De tudo me resta uma certeza Universal: é na escassez que a natureza humana se revela.

É na ausência do conforto, da segurança e na incerteza que a humanidade se descortina. Estaremos nus pelos próximos dias, cada qual em suas insignificâncias diante de um desconhecido. Em nossas “cavernas”. Viveremos tempos de Soberba, Avareza, Luxúria, Inveja, Gula, Ira e Acedia (Preguiça). Mas também de busca de sentido.

Mais do que nunca, o orgulho político aviltou a verdade recentemente, acompanhado por “terraplanistas” da ciência médica. Todos, pela primeira vez, estão acompanhando em “real time” os acontecimentos globais. Essa velocidade informativa e de conexão coloca toda a humanidade, ao mesmo tempo, como “analista” e “analisado” e, nesse mundo sem filtros, a presunção e orgulho não deveriam ser os melhores conselheiros.

Precisamos estar atentos aos fatos e compreendermos que essa crise deverá nos trazer lições. Eu me deparei com uma primeira.

Nesta semana, ouvi, não com decepção, mas com a constatação do que sempre imaginei da humanidade e das evocações (Camus, V. Hugo e Frankl), uma indagação de um empresário, se estaria cometendo algum “ilícito” na hipótese de adquirir determinados produtos para estocar e aguardar o aumento de preços, visando obtenção de maior lucro?

Quando reflito sobre a humanidade e que nessas horas, do desespero, haverá sempre a opção de sermos egoístas ou solidários, não me iludo que teremos uma maioria de pessoas de boa vontade, “que nasceram boas” e que a “sociedade as tornou más”, não penso como Dr. Pangloss, em Cândido (Voltaire), “que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Não vai, e, no Brasil, muito menos.

Aquele que é governado por paixões, é insensato. As paixões em tempos como esses, nos levam a comportamentos abaixo da dignidade humana. É na dor e no desespero que se abrem as “Caixas de Pandora”. É na crise que se apresentam o que que há de bom e de mau.

Em breve, a diminuição da produção derramará sobre nós a ausência de insumos para o povo em geral. É hora de renúncia. Hora de abstinência, de cuidado com o desperdício. Pensemos nisso. Pensemos em quem não terá condições de comer e beber. Abdiquemos de nossas vontades insaciáveis, essa talvez seja a maior contribuição de cada um.

Não alimentemos o ódio. É preciso mais a escuta e menos discurso de convencimento. A ira se demonstra em palavras e gestos. Precisamos de mais abertura e acolhimento. É hora de comedimento na relação com o semelhante, é hora de diálogo. Viveremos tempos de sofrimento, mas até mesmo o sofrimento tem sentido, tem razão. “Sofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um sentido, como o sentido de um sacrifício” (Viktor Frankl), isso escrito em Auschwitz.

Sim. Perdi o cliente empresário acima citado. Certamente algum outro advogado o acolherá. Que o Brasil renasça melhor para os (Renan, Italo, Giovanna e Lorenna).

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