Diario de Pernambuco
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Opinião
Contendo a euforia

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois

Publicado em: 18/01/2020 03:00 Atualizado em: 20/01/2020 11:31

O fim de 2019 e início de 2020 fizeram florescer uma certa euforia entre vários agentes econômicos, levados por algumas boas notícias. Entre elas destacaram-se os sinais claros de que a economia começou a apresentar sinais de retomada; a queda nas taxas de juros a níveis baixos para o histórico brasileiro, percepção de que o déficit fiscal primário ficaria bem abaixo do que era esperado, e a aprovação da reforma da previdência. Além disso, a venda de reservas internacionais pelo governo e a redução de juros pagos sobre a dívida pública também foram suficientes para equilibrar o endividamento total do governo em cerca de 77% do PIB, melhor do que os 80% que se esperava. Apesar de as expectativas de mercado para o crescimento do PIB para 2020 terem se mantido em torno de 2,5%, vários analistas já argumentavam que tal expectativa estava conservadora.

As últimas duas semanas, contudo, serviram para reduzir um pouco essa propensão à euforia. Os dados do IBGE para as evoluções da indústria, dos serviços e do comércio em novembro decepcionaram. Os dois primeiros setores apresentaram queda quando se compara a outubro (com ajuste sazonal) de 1,2% e 0,1%, respectivamente. Embora as vendas do varejo tenham apresentado uma elevação de 0,6% em relação a outubro, esse desempenho foi abaixo do que o mercado esperava. Além disso, a inflação em dezembro também foi acima das expectativas, indicando que talvez o Banco Central não tenha margem para maior redução das taxas de juros, expectativa essa que contribuía para a euforia de alguns. Por outro lado, a evolução do IBC-BR em novembro, quando comparado a outubro, mostrou evolução acima do que o mercado esperava. Houve evolução de 0,18%, enquanto o mercado esperava retração de 0,1%. Esse indicador do Banco Central é visto como prévia do PIB. Essa surpresa e o apoio do E.U.A. para a entrada do Brasil na OCDE, foram as informações positivas relevantes dessa semana.

Em Pernambuco, os indicadores de novembro foram ainda mais frustrantes. As vendas do comércio varejista ampliado, com ajuste sazonal, apresentaram queda de 2,2%, quando se compara a outubro. O setor de serviços apresentou queda de 1,1% quando se compara a igual mês do ano anterior e a produção industrial, também com ajuste sazonal, teve queda de 4,1%, quando se compara a outubro de 2019. Somente a inflação (IPCA) trouxe boas notícias, ficando em 3,71% no ano. Portanto, abaixo da nacional, que foi de 4,31%. Ou seja, a ducha de água fria a qualquer euforia foi ainda maior em Pernambuco.

Os desempenhos frustrantes dos indicadores mencionados acima não significam que a visão dominante de que o PIB brasileiro deva crescer 2,5% esse ano esteja otimista. Apenas servem para alertar que ainda não temos razão para ver essa previsão como pessimista. Vale lembrar que nos últimos dois anos acreditava-se que a economia cresceria mais do que realmente aconteceu. E as taxas projetadas eram semelhantes ao que se está prevendo para 2020. Essas frustrações nos levam a lembrar que a economia brasileira ainda não está com estrutura institucional que permita crescimento rápido e estamos muito vulneráveis a crises geradas por credibilidade política ou problemas internacionais, como ocorreu na Argentina em 2019.

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