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Opinião
O modelo Bolsonaro: entre Vargas e Lula

Luiz Otavio Cavalcanti
Ex-secretário da Fazenda e ex-secretário de Planejamento de Pernambuco.

Publicado em: 05/07/2019 03:00 Atualizado em: 05/07/2019 08:40

O Brasil teve dois presidentes populistas: Getúlio Vargas, na República Velha, entre 1930/1945. Depois, em 1950/54. Lula governou entre 2003 e 2010.

Getúlio começou como líder da Revolução de 30. Exerceu autoritariamente o poder. Aprofundou os contornos da ditadura no Estado Novo, em 1937. Flertou com o fascismo de direita. Até quando verificou que os aliados ganhariam a 2ª Guerra Mundial. Aí, selou acordo com a democracia capitalista de Franklin Delano Roosevelt.

Eleito em 1950, avistou no horizonte a massa operária que vinha no rastro da industrialização. E fundou o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. Assumiu, então, discurso social de esquerda. Portanto, Getúlio atravessou o populismo de direita. E terminou sua carreira embarcando no populismo de esquerda.

Por sua vez, Lula, no primeiro mandato, rezou na cartilha do equilíbrio político. Convidou para o ministério dois empresários: Roberto Rodrigues e Luis Furlan. E convidou para o Banco Central um parlamentar eleito pelo PSDB, recém-saído da direção do Banco de Boston: Henrique Meireles.

A linha da política econômica de sua primeira gestão foi fidelidade ao plano Real do antecessor, Fernando Henrique Cardoso. A estratégia de aliar-se a segmentos corporativos do empresariado e de seguir a receita do Real deu certo.

De outra parte, no segundo mandato, assumiu populismo de esquerda. E no tsunami do mensalão/petrolão deu mergulho no abismo do desastre moral. Que comprometeu a latitude do projeto. E apequenou a grandeza do sonho. O populismo raso perdeu a verticalidade ética.

À direita, Fernando Collor perdeu-se no caminho da Casa da Dinda. Agora, surgiu improvável sol: Jair Bolsonaro.

São quatro as características do populismo: primeira, desprezo pelo valor da liberdade individual; segunda, tática de vitimização do líder populista apelando à emoção do povo; terceira, aparente cumprimento de regras democráticas buscando alcançar graus de legitimidade; quarta, obsessão igualitarista, a ser promovida mediante concentração de poder no Estado idolatrado.

O populista é messiânico. Tenta transcender obra terrena. E transmitir aura divina. Para isso, aperfeiçoa o carisma. A capacidade de comunicação. De atrair pessoas por meio de discurso em que mais vale promessa que verbo. Essa é a chave da sedução populista: messianismo e carisma.

Sua ferramenta é o ludíbrio verbal. E sua meta é a desconstrução institucional. Seu método é identificar-se com o Partido; o Partido misturar-se com o Estado. E o Estado absorver a nação.

Bolsonaro é a primeira experiência veraz de populismo de direita no país. Ele pretende implantar um modelo autocrático burguês. Como sugere o historiador Carlos Guilherme Mota. O modelo Bolsonariano se fundamenta em três bases de apoio: o evangelismo, os desamparados não ideológicos (lúmpen) e o Exército.

O evangelismo é a dimensão religiosa, resposta protestante ao histórico catolicismo brasileiro. O lúmpen é a dimensão de pobreza social cuja debilidade se queda ao carisma. E o Exército é a retaguarda institucional que cumpre duas funções.

As duas funções cumpridas pelo Exército são: para dentro do governo, ajudar na organização administrativa porque é o único estabelecimento com que Bolsonaro tem laços. E para fora do governo, acentuar lastro institucional que sugere respaldo, força e continuidade.

O modelo de autocracia burguesa de Bolsonaro tem limites e possibilidades. Seus limites estão na mediocridade de seus operadores. Suas possibilidades estão na aprovação da reforma da Previdência, da reforma tributária e do arsenal microeconômico de Paulo Guedes.

Esse modelo ainda teve a sorte de ver aprovado o Acordo Mercosul / União Europeia. Que recupera anos da visão de atraso do populismo esquerdista. Com muitos prejuízos a um país continental. Que, hoje, participa com apenas 1,2% do comércio mundial.

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