Tom Zé faz 90 anos: A trajetória do gênio rebelde que renasceu no palcos recifenses
ícone da música brasileira, Tom Zé completa 90 anos neste domingo com uma trajetória intimamente ligada ao Recife, marcada pelo histórico show no Abril pro Rock de 1999
Publicado: 10/10/2026 às 06:00
Tom Zé em seu histórico show no Abril Pro Rock de 1999 (Foto: Gil Vicente/Acervo DP)
Escanteado pela indústria após o Tropicalismo, Tom Zé calou os que achavam que sua carreira já havia acabado em sua participação histórica no Abril pro Rock, em 18 de abril de 1999. “Vocês acabam de me salvar”, disse o músico no fim da apresentação, atribuindo a esse show o seu ressurgimento na cena musical brasileira.
A rebeldia, quase tão estrondosa quanto a catarse daquele dia, é a marca condutora de Antônio José Santana Martins, que completa 90 anos neste domingo (11). Natural de Irará, no interior da Bahia, é uma das mentes mais brilhantes e inventivas da cultura brasileira.
Responsável por assinar o disco “Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), um divisor de águas na música brasileira, junto com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão e Os Mutantes, Tom Zé viu os rumos de sua carreira mudarem drasticamente na década de 1970. Enquanto seus parceiros se transformavam em superestrelas da MPB, o baiano radicalizou na experimentação e acabou rejeitado pelas grandes gravadoras.
Ele foi rotulado como um artista "maldito", comercialmente inviável por criar músicas com instrumentos de sucata, e enfrentou um severo ostracismo nos anos 1980, chegando a planejar o abandono da carreira para trabalhar em um posto de gasolina na Bahia.
O isolamento só começou a ser rompido no início dos anos 1990, quando o músico escocês David Byrne descobriu o disco “Estudando o Samba” (1976) por acaso, no Rio de Janeiro, e o lançou no mercado internacional, abrindo caminhos para a apoteose vivida em seu debute no Recife no fim daquela década.
No palco, o repertório aliou uma postura quase messiânica a inserções cirúrgicas de frevo e maracatu, costurando a marchinha "Taí" e o hino "Pisa na Fulô" a clássicos autorais como "Nave Maria" e a moda de viola "2001". Na cobertura da apresentação, o Diario de Pernambuco relatou o êxtase das 4 mil pessoas presentes, que clamaram por um bis: “O magnetismo do baiano não deixava alguém sequer olhar de lado”. Apesar dos pedidos para continuar, o show acabou devido às regras de tempo do evento, o que gerou revolta.
A exemplo de gigantes como Moraes Moreira e Dorival Caymmi, Tom Zé é mais um mestre baiano que faz a rivalidade entre Bahia e Pernambuco ficar em segundo plano.
“Aquele encontro, aquele show no Abril Pro Rock, desencadeou sentimentos muito fortes, em mim e em vocês. O público me descobriu e eu o descobri. Não era mais palco-plateia, foi um bate-peito fantástico, um choque de mútua descoberta”, relembrou Tom Zé em entrevista ao Diario em 2016, quando passou pela capital pernambucana com o show “Canções Eróticas de Ninar: Urgência Didática” durante as celebrações de seus 80 anos.
Ele revelou ainda que, na infância, achava que Pernambuco estava próximo da Europa. “Eu tinha o privilégio de ter um rádio em casa, na época poucas famílias tinham. A gente usava para ouvir o rádio do Rio de Janeiro, que era uma espécie de educação paralela aos ensinamentos da família e da escola. E, no meio das ondas nacionais, entravam umas frequências locais e eu ouvia o bordão ‘Pernambuco falando para o mundo’. Então pensava: ‘Pernambuco é uma coisa grandiosa: é só esticar o braço, que tá lá na Europa’”, recordou.
Antes mesmo de proporcionar uma experiência de renascimento ao músico nos anos 1990, o estado também já havia aberto as portas para Tom Zé logo na estreia da sua carreira musical. O seu primeiro disco, o homônimo que ficou popularmente conhecido como “Grande Liquidação”, foi gravado em São Paulo e lançado, em 1968, pelo selo pernambucano Mocambo, da gravadora Rozenblit.
Atualmente em plena atividade criativa — tendo composto recentemente a inédita “Coala coalá”, em homenagem ao festival Coala, e já idealizando um novo projeto musical mantido em sigilo —, o artista segue fazendo shows com regularidade. Como parte das celebrações de seu nonagenário, o Selo Sesc lançou na sexta-feira (9) o álbum “Relicário – Tom Zé – Ao vivo no Sesc 1996”.
O registro histórico, gravado há 30 anos em São Paulo, passeia por faixas autorais como as já citadas “2001” e “Nave Maria”, além de “Augusta, Angélica e Consolação”, uma incursão pelo clássico “Trem das onze” e uma reinterpretação carnavalesca de “Taí (Pra você gostar de mim)”, célebre na voz de Carmen Miranda.
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