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Livro sobre o Vivencial conta como grupo nasceu na Igreja e impulsionou a cena LGBTI+ de PE na ditadura

Livro "Lantejoulas no Mangue", do jornalista Márcio Bastos, conta a histórica do icônico grupo de teatro pernambucano Vivencial, com lançamento neste sábado (10), às 14h, no MAC-PE, em Olinda

Camila Estephania

Publicado: 08/10/2026 às 07:47

Henrique Celibi, que mais tarde criou a Cinderela suburbana, em cena com Fábio Costa e Guilherme Coelho na peça

Henrique Celibi, que mais tarde criou a Cinderela suburbana, em cena com Fábio Costa e Guilherme Coelho na peça "Parabéns Pra Você" (1980), do Vivencial (Guilherme Marcelino/Divulgação)

Depois de semanas de ensaio na Igreja da Boa Hora, em Olinda, o grupo Vivencial estreou sua primeira peça, em maio de 1974, nas dependências do Mosteiro de São Bento. Para a surpresa do público que lotava o salão, a montagem dirigida pelo monge Guilherme Coelho estava longe de ser religiosa. Com críticas à Igreja, a encenação ainda celebrava a fé afro-brasileira e colocava corpos dissidentes de sexualidades diversas sob holofote, inaugurando, em plena ditadura militar, a trajetória transgressora do coletivo de teatro pernambucano, que agora é destrinchada pelo jornalista e pesquisador Márcio Bastos no livro “Lantejoulas do Mangue” (Editora Autêntica).

“É sempre interessante perceber a complexidade da História: ainda que a Igreja Católica tenha sido um pilar importante para a implementação da ditadura no Brasil, religiosos progressistas foram essenciais no enfrentamento à barbárie. Em Pernambuco, tivemos dom Helder Câmara como uma liderança forte e combativa”, lembra o autor, que participa do lançamento do livro neste sábado (10), às 14h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC-PE), em Olinda. Na ocasião acontecerá um bate-papo com o jornalista Schneider Carpeggiani.

O apoio monástico sedimentou o caminho que levou o Vivencial a criar mais de 30 montagens entre 1974 e 1983, sendo essa primeira experiência, intitulada “Vivencial I”, uma das mais marcantes. Tanto é que o cineasta e escritor Jomard Muniz de Brito filmou algumas cenas do espetáculo pelas ruas de Olinda para um curta-metragem homônimo, gravado em Super-8. O material está entre os 13 curtas que o artista fez com o grupo, ajudando a dar corpo às suas propostas estéticas e a construir um cinema autoral pernambucano. “São trabalhos que fazem parte de um momento importante do nosso cinema, experimental e instigante”, observa o pesquisador em entrevista ao Diario.

Ele explica que o cineasta e o coletivo compartilhavam muitas ideias e interesses estéticos, por isso houve uma colaboração intensa entre os dois, que foi além da sétima arte. Um episódio curioso proporcionado por Jomard foi a visita do seu amigo Caetano Veloso ao Vivencial Diversiones, casa sede do grupo aberta em 1978, em Olinda. Em meio a turnê do disco “Muito”, em 1979, o baiano foi ao local para assistir às vivecas, como eram chamados os atores do grupo, e saiu de lá impressionado.

Mistura de influências levou ao desenvolvimento de método particular

Àquela altura, chancelado pela imprensa e pela intelectualidade local, o coletivo já recebia artistas do Brasil inteiro, mas Caetano tinha um peso especial por ser um dos idealizadores do Tropicalismo, que foi uma das principais referências do coletivo. “Era como uma sintonia do momento, que alguns estavam captando e dando corpo. A psicodelia pernambucana, as experimentações nas artes visuais, como nos trabalhos de Paulo Bruscky, o cinema Super-8, e o Vivencial, no teatro, mostra como essa efervescência estava no ar”, aponta Márcio.

Além do desbunde tropicalista, o Vivencial ainda absorveu ecos de experiências diversas, como o Teatro Oficina, o Dzi Croquettes, o Teatro do Oprimido, a música pop, o rock e até referências religiosas da cultura popular pernambucana. Uma mistura incomum que não cabia em nenhuma das duas linhas teatrais vigentes no estado na época, ordenadas pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) e pelo Teatro Popular do Nordeste (TPN).

“O Vivencial estava sempre em um lugar ‘entre’. Misturava as referências, mas não ficava refém delas. Acho que a estética do Vivencial era não só a de transformar o lixo em luxo, mas também a de abraçar o erro, de apostar no risco. Pouco importava para eles se a encenação estivesse perfeita. Ela precisava ser verdadeira, refletir os anseios do grupo, em toda a sua pluralidade”, comenta Márcio. De acordo com ele, o grupo pensava teatro como uma forma de libertação e contestação do establishment, investindo na criação colaborativa, na centralidade do corpo e no potencial da improvisação como método.

Vivencial deixou herdeiros revolucionários

Um dos nomes mais destacados do Vivencial foi o ator Roberto França, popularmente conhecido como Pernalonga, sobre quem Márcio escreveu no livro “Pernalonga: Uma Sinfonia Inacabada” (Cepe, 2023). Ele virou ícone da comunidade LGBTI+, de onde vinha grande parte do Vivencial, ajudando a transformar o grupo em grande influência para diversos artistas dos anos 1970 e 1980, especialmente os que atuavam em shows de dublagens em boates e saunas.

“Mas, talvez, o reflexo mais explícito seja ‘Cinderela - A História Que Sua Mãe Não Contou’, um dos maiores fenômenos da cultura pop pernambucana. A caricatice, o linguajar escrachado, a estética periférica: tudo aquilo era destaque no Vivencial”, indica Márcio.

“Uma vez, Jeison Wallace me disse que decidiu ser artista após assistir à montagem "Tal & Qual Nada Igual", dirigida por Guilherme Coelho, do Vivencial, e com vários membros do grupo. Anos depois, ele e Roberto Costa assistiram ao espetáculo que Henrique Celibi montava em boates, que contava a história de Cinderela, uma ‘bichinha burralheira’, e que, pouco depois, eles adaptaram para o teatro com a Trupe do Barulho”, completa.

O autor destaca a importância da projeção do grupo na imprensa local da época para dar visibilidade a grupos marginalizados e promover um protagonismo LGBTI+ que foi essencial para formar a cena queer do estado. Nesse aspecto, ele destaca que o Diario foi primordial na pesquisa. “O jornal registrou toda a trajetória do Vivencial e ajudou não só a divulgá-la, como também refletiu e construiu junto com o grupo, com críticas e reflexões”, conclui.

SERVIÇO:
Lançamento do livro "Lantejoulas no Mangue", de Márcio Bastos
Quando: Neste sábado (10), às 14h
Onde: Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE) - Rua Treze de Maio, 149, Varadouro, Olinda
Entrada Gratuita

Valor do livro: R$ 69 

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