‘A Margem do Rio’ faz dos mangues do Recife palco e fronteira de desejos proibidos
Visualmente exuberante, suspense de estreia em longa-metragem de Enock Carvalho e Matheus Farias teve sua estreia nacional na Premiere Brasil do 28º Festival do Rio, nesta terça-feira (6)
Publicado: 08/10/2026 às 11:43
Caique Copque e Italo Martins vivem relação intensa no centro da trama de suspense (Vitrine Filmes/Divulgação)
A relação entre o recifense e o manguezal entrecorta o coração da capital pernambucana desde a camada ecológica até a cultural, mas "A Margem do Rio" a coloca no centro do drama e no motor da atmosfera. Longa-metragem de estreia da dupla Enock Carvalho e Matheus Farias, que venceu o Prêmio do Júri do 79º Festival de Locarno, o suspense teve sua aguardada estreia nacional nesta terça-feira (6), na Premiere Brasil do 28º Festival do Rio. A sessão relembrou, sem pudores, a pulsão de sensualidade e audácia visual tão marcantes da produção pernambucana.
Na trama, Izaquiel (vivido por Caique Copque) é um jovem auxiliar de serviços gerais que mora no Recife com um grupo de amigas e, durante a noite, frequenta o mangue em busca de encontros sexuais. Em uma dessas noites, ele conhece o misterioso pescador Jeremias (Italo Martins), com quem começa uma relação perigosa. A ameaça verdadeira, porém, insurge de um grupo religioso fanático que vem ganhando cada vez mais poder.
Do ponto de vista sensorial, "A Margem do Rio" tem repertório visual de sobra para mergulhar o espectador na aura de fascínio e perigo representada pelo mangue. A fotografia de Luciana Baseggio e a trilha sonora original, assinada por IDLIBRA e Mateus Alves, constroem juntas um ritmo tão magnetizante quanto aterrador. Poucas vezes os rios do Recife foram iluminados com tanta perícia quanto aqui, sobretudo quando Enock e Matheus investem na possibilidade de inserções fantásticas na história.
O mangue noturno é palco perfeito para os desejos em seu estado mais primal, concretizados por uma câmera muito franca em sua estilização, mas que se mantém bastante naturalista no tratamento das situações em que coloca seus personagens. Apesar de alusões oníricas e acenos surreais, portanto, é um filme assustadoramente mais real — e atual — do que ele mesmo gostaria.
A presença imponente de Robério Diógenes no papel de Eurico, líder fanático, representa bem essa fronteira entre o real e o absurdo. Ele tem o carisma e a imponência de um antagonista reconhecível, mas também arquetípico em sua presença vilanesca. A atuação de olhares curiosos de Caique Copque é um contraponto apropriado à sucessão de acontecimentos intensos que o circundam, ainda que o roteiro às vezes soe arbitrário na forma como conduz as atitudes do protagonista.
Apesar de haver um conflito central que guia a narrativa, "A Margem do Rio" prioriza a exposição gradual das caracterizações em detrimento dos desdobramentos do suspense. A decisão demonstra consciência e cuidado por parte dos realizadores para que as relações de amizade entre Izaquiel e suas amigas (destaque para a personagem vivida por Artia Lauandah) tenham tanto espaço no enredo quanto o thriller em si.
No papel, a escolha é sensata. Na tela, porém, o tempo dedicado às coadjuvantes incha o ritmo do filme a partir da segunda metade, principalmente porque as cenas internas de "A Margem do Rio" são decupadas com bem menos perícia e criatividade do que as sequências do mangue e da igreja. É notável o apreço com que a dupla de cineastas registram as interações entre as personagens secundárias, mas eles se saem curiosamente melhor no território da estilização do que no registro do dia a dia.
O núcleo romântico, eixo gravitacional da iconografia do filme, por outro lado, é bem melhor resolvido na forma do que no conteúdo. Pouco é fornecido à plateia (além de belíssimas composições plásticas) para que a conexão entre os personagens de Izaquiel e Jeremias ganhe a verdade que o roteiro quer vender no terceiro ato. Fosse assumida, a fantasia plena poderia fortalecer esse pedaço da história.
Banhado de talento em todos os níveis de produção, "A Margem do Rio" transborda vontade de abarcar uma série de discursos dentro da sua estrutura. Mas a ideia de explorar o terror crescente do fundamentalismo, que tenta cercear o desejo alheio, é o pino que realmente segura as rédeas no lugar. E é da ambição de colocar o pé na lama sem medo de eventualmente ficar preso nela que nascem — e crescem — alguns dos grandes criadores.
O público pernambucano terá de aguardar até 7 de janeiro de 2027 para conferir "A Margem do Rio" nas salas, mas a ficção já fez barulho no cenário internacional após sair vitoriosa com o Prêmio Especial do Júri do 79º Festival Internacional de Cinema de Locarno.