De Tracunhaém à Fenearte: Mestre Zuza recria santos católicos com traços afro-indígenas e nordestinos
Referência do artesanato pernambucano, Mestre Zuza apresenta santos de identidade nordestina e painéis inéditos na Fenearte
Publicado: 17/07/2026 às 06:00
Mestre Zuza marca presença em mais uma edição da Fenearte (Foto: Maurício Ferry/DP Foto)
Por muito tempo, a arte sacra produzida e difundida no Brasil foi marcada por imagens inspiradas na iconografia cristã europeia, com feições brancas e vestimentas rebuscadas. Esse imaginário estrangeiro, contudo, dissolve-se diante do barro trabalhado por José Edvaldo Batista, mais conhecido como Mestre Zuza.
Em seu ateliê, em Tracunhaém, na Zona da Mata Norte, o artesão dedica-se a esculpir, detalhe por detalhe, santos católicos profundamente nordestinos com traços afro-indígenas. O ofício consagrou seu nome na cultura popular e o transformou em presença obrigatória na Alameda dos Mestres desde o início da Fenearte, que neste ano acontece até o domingo (19), no Centro de Convenções, em Olinda, onde suas peças estão entre as mais cobiçadas.
A árvore genealógica de Mestre Zuza confunde-se com a própria evolução do fazer artístico em Tracunhaém. Filho caçula de uma família de onze irmãos, em que todos se tornaram artesãos, ele aprendeu as primeiras técnicas em casa, guiado pelo talento da tia Severina Batista.
Na virada do século 19 para o 20, a família sobrevivia da produção manual de objetos básicos, como panelas, pratos e cachimbos de barro. “Era uma vida de muito sofrimento. A arte figurativa praticamente não existia em Tracunhaém”, conta o artista, hoje com 68 anos, em entrevista ao Diario. Aos 14 anos, iniciou o aprendizado em uma olaria e, depois, trabalhou com o Mestre Tiago Amorim, que ajudou a ampliar sua visão sobre o artesanato local.
O início da década de 1980 marcou o amadurecimento de sua assinatura com a produção de xifópagos, figuras caracterizadas pelas formas siamesas e entrelaçadas. Porém, a busca por sustentabilidade financeira fez o artista recalcular a rota criativa. “Tinha a questão da religiosidade das pessoas e também a necessidade de vender melhor. O Brasil é muito católico e isso influenciou o meu trabalho”, explica Mestre Zuza.
“Os meus santos são inspirados no povo nordestino, nas raízes negras e indígenas e nas pessoas mais simples. Também incorporo elementos que remetem à juta (vestes simples de personagens religiosos), à pobreza franciscana e à cultura popular pernambucana. Foi a forma que encontrei de criar uma identidade para o meu trabalho”, acrescenta.
O tempo passou e as técnicas ceramistas evoluíram, mas a produção de Mestre Zuza permanece fiel à essência manual, apesar dos desafios atuais para encontrar madeira e novas fontes de argila. O
torno, equipamento de modelagem, é um recurso estritamente complementar, acionado apenas em momentos estratégicos. Todo o trabalho de expressão dos rostos, das roupas e dos ornamentos mais minuciosos dispensa qualquer automatização. “Muitas vezes ainda piso o barro com os pés para deixá-lo mais macio e retiro manualmente todas as pequenas pedras”, conta o artesão.
Para esta edição da Fenearte, ele traz uma coleção de aproximadamente 200 santos e esculturas figurativas, além de uma série inédita de painéis cerâmicos. O novo trabalho apresenta pequenos mosaicos quadriláteros que traduzem a alma, a geografia e a iconografia cultural de Pernambuco.
"As lajotas que eu trouxe praticamente acabaram. Agora já tenho clientes de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo entrando em contato para encomendar essas peças”, afirma Mestre Zuza, que se preparou por muito tempo para o evento. “A gente trabalha o ano inteiro para vender durante esses dias. O dinheiro obtido sustenta famílias por muitos meses”, explica.
Com mais de 50 dedicados ao artesanato, Mestre Zuza admite que o corpo já impõe novos limites ao trabalho na bancada. “A idade pesa, embora a vontade de criar continue”, lamenta.
Para assegurar a continuidade da tradição em casa, ele deposita suas esperanças no filho Eduardo e no neto Pablo Mayckon — que já participou do Salão de Arte Sacra da Fenearte e também tem peças expostas na feira. “Quero que eles aprendam porque hoje sou o único dos meus irmãos que continua vivo. Tenho essa preocupação com a continuidade da tradição”, diz.
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