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"Há uma Zezé Motta antes e outra depois", diz atriz de ‘Xica da Silva’, de volta em cartaz após 50 anos

Zezé Motta fala ao Diario sobre o legado do clássico do cinema brasileiro, dirigido por Cacá Diegues, que retorna aos cinemas nesta quinta (16) com versão restaurada em 4K

André Guerra

Publicado: 15/07/2026 às 06:00

Lançado em 1976, 'Xica da Silva' retorna através da Sessão Vitrine Petrobras/Divulgação

Lançado em 1976, 'Xica da Silva' retorna através da Sessão Vitrine Petrobras (Divulgação)

Nem todo artista tem o privilégio de testemunhar um trabalho divisor de águas em sua carreira completar 50 anos tão vivo no imaginário cultural. Esse é o caso de Zezé Motta com o clássico "Xica da Silva", que está completando 50 anos desde o seu lançamento e retorna às salas — como a do Cinema da Fundação, no Recife — em versão restaurada em 4K, através da Sessão Vitrine Petrobras.

Dirigido pelo saudoso Cacá Diegues, que faria outros trabalhos canônicos, como "Bye Bye Brasil" e "Tieta do Agreste", o filme foi adaptado do livro homônimo de João Felício dos Santos e até hoje é um marco do cinema brasileiro — influente, questionado e referendado por diversas razões.

A história verídica de "Xica da Silva" permanece fascinante: a personagem-título, vivida por Zezé Motta, é uma mulher negra escravizada que, através de seu poder de sedução irrefreável, consegue sua alforria e ascende à alta sociedade no Distrito Diamantino (hoje a cidade de Diamantina, em Minas Gerais), casando-se com o contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas).

Transformador da representação racial no cinema nacional, "Xica da Silva" apresentou Zezé Motta para o país inteiro. O longa de Cacá Diegues foi visto por mais de 3 milhões de espectadores à época e, nas últimas cinco décadas, atravessou diferentes gerações.

Em entrevista ao Diario, a atriz afirma que o filme nunca a abandonou. "Cada homenagem que recebo nos diversos eventos e festivais de cinema sempre passa por 'Xica da Silva'. Já perdi as contas de quantas vezes eu o assisti, e toda vez encontro um filme diferente", destaca, enaltecendo: "Há uma Zezé antes e outra depois dele".

Apesar dos elogios da crítica, a forma burlesca como a obra trata da objetificação do corpo feminino provocou diversas leituras ao longo do tempo. Ciente dos vários apontamentos feitos desde o lançamento, Zezé conta que passou a compreender ainda mais a relevância do filme para a identidade cinematográfica do país.

"Com o passar dos anos, fui assistindo com outros olhos. Passei a perceber detalhes que antes me escapavam, as camadas da personagem, as contradições da história e também a importância que o filme teve para tantas pessoas. Hoje, vejo 'Xica' não apenas como um marco da minha carreira, mas como uma obra que faz parte da história do cinema brasileiro e que continua despertando debates muito atuais", explica. "Revê-lo completamente restaurado é como reencontrar uma parte cristalizada da minha juventude, então é particularmente especial", observa Zezé.

A história também virou assunto na TV, com a novela "Xica da Silva", exibida pela Rede Manchete entre setembro de 1996 e agosto de 1997. A produção, que também contava com Zezé Motta no elenco, tinha Taís Araújo no papel principal e foi o trabalho que lhe deu projeção nacional.

A produtora de cinema Renata Magalhães, viúva de Cacá Diegues, relembra que o cineasta alagoano teve a ideia de fazer "Xica da Silva" ao assistir ao desfile do Salgueiro de 1963. "Ele ficou deslumbrado com tudo aquilo e com aquela personagem e, anos depois, isso deu origem ao filme. Ele trouxe esse carnaval para dentro do longa, que se tornou o seu maior sucesso comercial", ressalta. "É genial a forma como ele pega uma personagem histórica e a trata de um modo absolutamente irreverente e inesperado, principalmente para aqueles tempos", revela Renata.

Com um elenco estrelado ainda por José Wilker, Altair Lima e Elke Maravilha, além da música icônica de Jorge Ben, "Xica da Silva" é um projeto simbólico de uma época peculiar na carreira de um cineasta que sempre buscou compreender as diferentes dimensões históricas do Brasil e que, em cada uma de suas controvérsias, nunca se esquivou de sua autenticidade.

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