‘O Urso’ se despede em alto nível com temporada final caótica e humana
Série da Disney+ protagonizada por Jeremy Allen White, "O Urso" mantém excelência e se despede como uma das mais marcantes da televisão recente
Publicado: 10/07/2026 às 17:57
Parceria entre Carmy e Syd é um dos pilares da temporada final de "The Bear". (Foto: Disney/Divulgação)
Há quem diga que a única certeza da vida é a morte. Pode até ser. Mas, nos últimos anos, havia outra: a chegada de uma nova temporada de “O Urso” (The Bear). Em uma indústria que naturalizou hiatos de dois ou três anos entre lançamentos, o drama criado por Christopher Storer manteve uma regularidade cada vez mais rara, sem que sacrificasse um único milímetro de sua genialidade.
O sarrafo altíssimo se repete na quinta e última temporada, disponível no Disney+. Mais uma vez, a gastronomia é apenas o ponto de partida para uma história sobre pessoas imperfeitas, seus traumas e a busca por recomeços. A partir daqui este texto contém spoilers.
Ao contrário das temporadas anteriores, que expandiram o universo dos personagens para além do restaurante, o roteiro desta vez aposta no confinamento claustrofóbico da equipe no The Bear durante o que pode ser o último serviço. A trama retoma os acontecimentos exatamente de onde parou: o prazo do financiamento do restaurante chega ao fim, assim como a trajetória de Carmy (Jeremy Allen White) no comando da cozinha.
Em meio a uma tempestade, um teto que desaba, ingredientes em falta e uma horda de clientes famintos, Syd (Ayo Edebiri) precisa tomar as rédeas, vencer as próprias inseguranças e liderar a equipe ao lado de Richie (Ebon Moss-Bachrach), Natalie (Abby Elliott), Tina (Liza Colón-Zayas) e Marcus (Leonel Boyce).
Toda a tensão só funciona porque, por trás do ritmo frenético da cozinha, "O Urso" está sempre interessada em seus personagens. Potencializada por atuações impecáveis, com destaque para Allen White e Edebiri, a narrativa faz com que cada um deles tenha uma personalidade tão definida que suas escolhas, mesmo quando equivocadas, parecem consequência natural de quem são.
Será que Carmy consegue passar o bastão? Como Syd, com um estilo tão oposto, vai gerenciar essa responsabilidade? Richie dará conta do salão lotado? Natalie conseguirá deixar a filha com a mãe? O que Tina fará com seu dom? E Marcus, conseguirá enfrentar a realidade com o pai?
Nenhuma dessas dúvidas é uma novidade. Mas, reunidas em uma única noite, elas encurralam cada um dos personagens com seus próprios limites. O caos deixa de estar apenas na cozinha e passa a habitar também o interior de cada um.
Ao concentrar toda a narrativa em poucas horas e contar com a trilha original pulsante de Hans Zimmer, a temporada imprime um ritmo sufocante, em que cada escolha parece provocar um novo efeito dominó, tornando uma situação já insustentável ainda mais caótica.
A dinâmica lembra a de "The Pitt" (HBO Max), que também concentra sua narrativa em um único expediente para retratar o desgaste físico e emocional provocado pelo trabalho. Em uma época em que a exaustão costuma ser romantizada ou ignorada, é reconfortante ver produções dispostas a encará-la de frente.
No caso de “The Bear”, fica nítido que o individualismo – antiga obsessão de Carmy — é uma armadilha. Cruzar a linha de chegada de um turno massacrante não depende de ambições individuais, mas sim da confiança em outros colegas que dividem a mesma trincheira.
Foi assim que, depois de uma noite em que tudo parecia caminhar para o desastre, o The Bear alcança aquilo que Carmy sempre buscou, mas nunca conseguiu sozinho: uma equipe em plena sintonia. Na metade final do penúltimo capítulo, a cozinha deixa de ser um campo de batalha e passa a funcionar como um organismo coletivo, no qual cada profissional entende seu papel para entregar um serviço excepcional.
É um reflexo do entrosamento do próprio elenco, responsável por um episódio que já nasceu clássico. Consagrada como uma das obras mais marcantes de sua geração, a série mostra que, mesmo em um mar de superficialidades, a televisão ainda é plenamente capaz de nos arrebatar e emocionar.
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