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CRÍTICA

Inteligente e hilária, comédia ‘O Convite’, de Olivia Wilde, é impossível de recusar

Olivia Wilde dirige e estrela comédia cortante e sagaz sobre casal em crise sexual, ao lado de atuações memoráveis de Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton

André Guerra

Publicado: 10/07/2026 às 16:41

Quarteto composto por Olivia Wilde, Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton brilha com texto divertido e cortante/O2 Play/Divulgação

Quarteto composto por Olivia Wilde, Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton brilha com texto divertido e cortante (O2 Play/Divulgação)

Ao chegar em casa do trabalho, o músico frustrado Joe (Seth Rogen) descobre que sua esposa, Angela (Olivia Wilde), convidou os vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) para um jantar. A ideia não o agrada em nada, principalmente por conta dos barulhos cada vez mais altos que aquele casal tem feito nas madrugadas recentes. Ela, no entanto, faz de tudo para aprazer os dois e tenta ao máximo para que seu marido não coloque na mesa o seu incômodo. Mas é inevitável: após alguns drinks, quando o assunto surge, a conversa descarrilha a um ponto sem retorno e as crises conjugais todas vem à tona.

Já em cartaz nos cinemas, “O Convite” é dirigido pela própria Olivia Wilde, em seu terceiro trabalho na direção, após a elogiada comédia adolescente “Fora de Série” (2019) e o divisivo suspense psicológico “Não Se Preocupe, Querida” (2022). O roteiro, escrito pela dupla Will McCormack e Rashida Jones, é uma adaptação do longa espanhol “As Pessoas do Andar de Cima”, lançado em 2020 e comandado por Cesc Gay, baseado em sua peça.

Apesar das semelhanças com outras comédias clássicas de casais em crise discutindo dentro de apartamentos, como “Maridos e Esposas”, de Woody Allen, e “Deus da Carnificina”, de Roman Polanski, este projeto encontra rapidamente a sua própria voz. E ela é fabulosa.

Com este único cenário e um texto afiado que está sempre escalonando os constrangimentos, Olivia Wilde conduz o ritmo da noite em que a história se passa com a fluidez de uma veterana do humor. Não apenas a sua caracterização como protagonista é impecável, em todas as suas neuroses e tristezas subjacentes, mas a naturalidade com que os demais atores contracenam e defendem seus personagens é impressionantemente convincente. Penélope Cruz, em particular, esbanja a voluptuosidade que se espera e parece colocar todos os outros no bolso quando começa a falar.

A sensação de tempo real de “O Convite”, porém, não se deve apenas às excelentes interpretações, mas à montagem ágil e precisa de Yorgos Mavropsaridis (de “A Favorita”) e à trilha de cordas do músico britânico Dev Hynes, que pontua cada diálogo como um pulso emocional da cena. Crédito absoluto também para encenação da cineasta, que, auxiliada pela fotografia em 35mm de Adam Newport-Berra, deslocaliza propositalmente o espectador naquele imenso apartamento. Na prática, vira um grande labirinto de comédia. A conversa sobre as diversas modalidades de sexo, que domina o segundo terço do filme, já está entre as sequências mais inspiradas e divertidas de 2026.

Existe um contraponto melancólico, motivador de todo o drama, que fica proeminente no terço final, ocasião em que o filme parece desacelerar para reforçar seu lado mais emocional. Chama atenção sobretudo a performance de Seth Rogen durante essa passagem, visto que o comediante passeia (perfeitamente bem) por caminhos já conhecidos do seu trabalho ao longo de "O Convite". Quando a direção exige, ele explora facetas tocantes de sua persona, algumas delas já vistas no também ótimo "Entre o Amor e a Paixão", de Sarah Polley.

Poucas coisas são mais desafiadoras do que manter a propulsão de humor em uma comédia de texto como essa e, portanto, não seria justo esperar que justo "O Convite" segurasse essa peteca com a mesma intensidade durante todas as quase duas horas de duração. É inegável, ainda assim, que parte da graça se dilua na hora em que a história pede uma desaceleração.

A saída que a direção e o roteiro encontram para que o tom de delicadeza do último ato não se torne arbitrário ou artificial é singular. Das várias demonstrações de elegância formal que Olivia Wilde durante o filme, o enquadramento final talvez seja um dos mais sagazes — e, do ponto de vista da história do casal central, o mais significativo.

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