Enquanto sertanejos ganham milhões, Flávio José recusa redução no cachê do São João
Após ter reajuste de cachê questionado pelo MP-BA, Flávio José cancela agenda na Bahia; em Pernambuco, forró tradicional recebe valores inferiores aos gêneros mais comerciais
Publicado: 10/06/2026 às 17:48
Cantor e sanfoneiro Flávio José (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
O cantor e sanfoneiro paraibano Flávio José anunciou, em um comentário publicado no Instagram, que não vai participar mais do São João da Bahia deste ano, após recusar um acordo com o Ministério Público (MP-BA) sobre o valor de seu cachê no estado.
O impasse começou após o órgão questionar o reajuste de seu contrato, que saltou de R$ 250 mil, em 2025, para R$ 350 mil, em 2026, representando uma alta de 40%. O caso reacendeu o debate sobre a desvalorização do forró tradicional nos polos juninos, enquanto astros do sertanejo e do piseiro recebem supercachês milionários.
"Às vésperas da maior festa cultural do Nordeste, recebi a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê. Enquanto isso, outros artistas que não têm relação com o forró ganham rios de dinheiro. Isso é de um desrespeito sem tamanho. Por esse motivo, não irei à Bahia este ano. É lamentável", escreve o artista. Em sinal de protesto, ele cancelou 15 shows que faria nos festejos juninos baianos.
Em nota enviada à imprensa, o MP-BA justificou que as recomendações sobre os cachês são baseadas em critérios técnicos, como projeção artística e notoriedade. No caso de Flávio José, o monitoramento ocorreu devido ao reajuste de seu cachê em relação a 2025.
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O órgão também detalhou que acionou mais de cem municípios baianos por indícios de superfaturamento, “incluindo aqueles que anunciaram contratações do artista Flávio José pelo valor de R$ 350 mil, um aumento de R$ 100 mil em relação ao ano passado”.
A título de comparação, a atração mais cara das festas de São João do estado, segundo dados disponíveis no Painel Junino do MP-BA, é a dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano. Os dois receberão R$ 905 mil por show, valor que representa um aumento de 12,7% em relação ao cachê do ano passado (R$ 803 mil), sendo permitido pelo órgão.
PERNAMBUCO
Em Pernambuco, Wesley Safadão opera em um patamar financeiro ainda mais elevado. Mesmo que seja reconhecido como um representante do forró eletrônico, o artista ampliou seu público ao combinar o estilo com sertanejo, arrocha e piseiro, sendo enquadrado fora do forró tradicional.
Neste ano, seu cachê em Caruaru inflou 25%, subindo de R$ 1,1 milhão, em 2025, para R$ 1,5 milhão, em 2026. Esse acréscimo de R$ 400 mil assegura ao cantor o título de atração mais cara de todo o evento pelo segundo ano consecutivo.
Embora conte com a adesão de apenas 15% dos municípios pernambucanos até o momento, o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) traz dados que evidenciam a disparidade que rege a distribuição de recursos entre os ritmos.
Um levantamento realizado pelo Diario na plataforma constatou que metade dos contratos de artistas do forró vão até R$ 50 mil. Em contrapartida, metade das atrações de outros estilos musicais mais comerciais garantiram contratos acima de R$ 180 mil.
Outro dado relevante é que, entre os maiores cachês de todo o São João do estado, apenas quatro pertencem a artistas do forró e todos eles estão ligadas à vertentes mais comerciais, como Safadão. São os casos do projeto À Vontade (Caruaru, R$ 990 mil), Xand Avião (Caruaru, R$ 800 mil), Henry Freitas (Caruaru e Santa Terezinha, R$ 600 mil em cada município) e a Banda Seu Desejo (Caruaru, R$ 500 mil).
As demais posições são ocupadas por artistas de outros segmentos, como Bell Marques, do axé (Caruaru, R$ 800 mil); Pablo, do arrocha (Caruaru, R$ 765 mil); Matheus e Kauan, do sertanejo universitário (Caruaru, R$ 700 mil); e Léo Santana, do pagode baiano (Caruaru, R$ 650 mil).
A lista inclui ainda Zé Vaqueiro, do piseiro e vaquejada (Caruaru, R$ 600 mil); Mari Fernandez, do piseiro e sertanejo (Caruaru, R$ 520 mil); e Léo Magalhães, do sertanejo e arrocha (Caruaru e Caetés, R$ 500 mil em cada cidade).