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ARTES PLÁSTICAS

Christina Machado lança livro sobre residência artística no Hospital da Tamarineira: "O cuidado não passa apenas pelo remédio"

Livro "Minha Cabeça, Nossa Natureza" documenta experiência de Christina Machado com argila, pacientes e criação artística no Hospital da Tamarineira

Allan Lopes

Publicado: 28/05/2026 às 06:00

Modelos de cabeças em argila foram usados por Christina como eixo de criação e interação com pacientes e visitantes/Foto: Divulgação

Modelos de cabeças em argila foram usados por Christina como eixo de criação e interação com pacientes e visitantes (Foto: Divulgação)

Durante seis anos, a artista plástica pernambucana Christina Machado manteve uma residência artística no Hospital Ulysses Pernambucano (HUP), mais conhecido como Hospital da Tamarineira, no Recife, que é referência em tratamento psiquiátrico no Recife. Duas vezes por semana, ela recebia pessoas no espaço e as estimulava a criar formas, cabeças e objetos a partir do barro, sem a cobrança da técnica ou de um resultado “correto”.

As peças, histórias e registros desse processo criativo foram guardados ao longo do tempo e agora se transformam no livro “Minha Cabeça, Nossa Natureza”, que será lançado nesta quinta-feira (28), no Auditório Evaldo Coutinho, no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE, em dois horários: às 10h e às 15h30. A atividade da tarde integra o Maio Antimanicomial da unidade, em referência ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio.

Organizado pela curadora e historiadora Joana D’Arc Lima, “Minha Cabeça, Nossa Natureza” reflete sobre a capacidade da arte de materializar dores que nem sempre conseguem ser elaboradas pela fala, sem confundir o processo artístico com o tratamento médico ou terapêutico adequado.

“Às vezes, o cuidado não passa apenas pelo remédio. Ele pode estabilizar uma situação, mas outras possibilidades também precisam existir”, ressalta Christina. Com tiragem de 500 exemplares, a obra ficará disponível no site www.christinamachado.art e terá distribuição voltada a escolas, bibliotecas, curadores e historiadores.

Em 2004, Christina encontrou na exposição “Tempo de Carne e Osso” um caminho decisivo para ampliar sua pesquisa com a argila, que atravessa seus 50 anos de carreira. A experiência, uma das várias detalhadas nas 67 páginas da publicação, levou a artista a incorporar o próprio corpo às obras e a explorar novas linguagens, como a instalação, a performance e a videoarte.

Um ano depois, Christina chegou ao HUP por meio da Semana de Artes Plásticas do Recife (SPA das Artes), quando o hospital integrou a programação do evento e recebeu artistas convidados a desenvolver obras a partir de sucatas hospitalares.

Assim nasceu “Cama Sem Pé Nem Cabeça”, instalação criada com sucatas de camas usadas no internamento de pessoas assistidas pela instituição. Definida pela artista como “uma representação do inconsciente coletivo”, a obra ocupou duas salas e estabelecia uma conexão com “Mulher de Ferro”, em que ela vestia o próprio corpo com arames de ferro.

As duas peças eram ligadas por um fio e por luzes vermelhas, criando uma relação visual entre corpo, memória e sofrimento. “O trabalho passou a se construir muito nessa direção, a partir da vivência e do registro fotográfico”, explica Christina.

Provocada pelo convite do fotógrafo Luiz Santos, a artista iniciou uma residência artística no hospital da Tamarineira, onde a argila se tornou o eixo de contato e criação com os pacientes. “Eles seguiam seus caminhos, mas deixavam o registro daquilo que talvez não conseguissem dizer”, diz.

O processo se desdobrou no trabalho “Da Matéria à Materialização”, em que Christina disponibilizou sessenta cabeças em argila para incentivar a interação entre pacientes, visitantes e o próprio ambiente do hospital. “As pessoas entravam no ateliê e ficavam cinco minutos, duas horas ou o tempo que precisassem. Ali chegavam todas as formas de expressão”, conta a artista.

No convívio diário, Christina passou a observar de perto os modos particulares com que cada pessoa se aproximava da argila. Alguns encontros ficaram especialmente marcados, como o de seu Chico, que escrevia sinais difíceis de decifrar.

Também acompanhou processos mais longos, como o de Anselmo, cuja relação com a argila teve diferentes fases e foi preservada por ela em registros datados. A experiência, no entanto, nunca foi conduzida como terapia. “Não tive a pretensão de ocupar o lugar da arteterapia nem da psicologia. Era uma coisa muito nua e crua da minha parte”, pontua.

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