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Clássico do Udigrudi, primeiro disco de Flaviola completa 50 anos e é celebrado em festival no Recife

Nesta sexta-feira (29), o Festival Lula Côrtes acontece no Brilho Cultural e conta com show da banda Anjo Gabriel em homanagem aos 50 anos do disco "Flaviola e o Bando do Sol". Fernando Catatau, da banda cearense Cidadão Instigado, e o paraibano Totonho e Os Cabra também participam do evento

Camila Estephania

Publicado: 27/05/2026 às 06:30

Flaviola faleceu em 2021, aos 68 anos de idade, em decorrência de complicações da Covid-19/Reprodução/Redes Sociais

Flaviola faleceu em 2021, aos 68 anos de idade, em decorrência de complicações da Covid-19 (Reprodução/Redes Sociais)

Reverenciado pelas novas gerações, o disco Flaviola e o Bando do Sol precisou superar enchentes e desafios do mercado fonográfico antes mesmo de seu lançamento, em 1976. Cinquenta anos depois, o contexto da produção ressalta a singularidade de um material que se tornou item de colecionador e referência para diversos artistas. Alguns deles celebram a obra no Festival Lula Côrtes, que acontece nesta sexta-feira, às 21h, no Brilho Cultural, no Centro do Recife.

Na ocasião, a banda Anjo Gabriel vai reviver o repertório do disco ao lado de convidados como o cearense Fernando Catatau, da Cidadão Instigado, Dmingus, Juvenil Silva e Lua Paiva, além de contar com show do paraibano Totonho e Os Cabra. Os ingressos custam a partir de R$ 65.

Todos os artistas envolvidos se conectam de alguma forma com o espírito desbravador do do recifense Flávio Lira, mais conhecido como Flaviola. Dmingus, por exemplo, foi o produtor do segundo e último disco do artista, Ex-Tudo, lançado em 2020, um ano antes de sua morte. Mesmo após a partida, o músico permanece presente para Juvenil Silva, assim como outros expoentes da cena Udigrudi, como ficou conhecida a psicodelia pernambucana. “A influência vai desde a forma de composição, passando pela estética sonora, timbres, a maneira de tocar e muita experimentação. Esses discos vão ecoar e reverberar muito por aí ainda”, explica ele ao Diario.

Flaviola prezava tanto pela liberdade de criação - hoje exaltada pelos seus discípulos - que adiou o primeiro disco até que encontrasse uma gravadora que lhe permitisse fazer o que quisesse. Em entrevista para este Diario em 1975, ele disse ao jornalista Geneton Moraes Neto que havia recebido convites para gravar no Rio de Janeiro um ano antes, mas não se interessou porque teria restrições. “Em disco, o que vale é fazer um trabalho completo, não em porcentagens”, concluiu na época.

Àquela altura, era natural que houvesse uma expectativa em torno do seu primeiro trabalho, porque o artista já vinha se apresentando desde 1971 e havia circulado bastante com o show Folias de Flaviola, em 1975. A oportunidade ideal para gravar surgiu quando a produtora de Kátia Mesel e Lula Côrtes, amigo e parceiro de Flaviola em várias músicas, articulou a criação do selo Solar, da extinta Rozenblit, para lançar álbuns independentes mais experimentais.

Nada mais parecia embaraçar o disco, não fossem as cheias do Rio Capibaribe em 1975, que invadiram os estúdios da Rozenblit bem na época dos ensaios. Depois que a água secou, todos os equipamentos estavam prejudicados, mas já era tarde demais para desistir. “Ou a gente esperava anos para que comprassem máquinas ou faríamos daquele mesmo jeito lá. O som era um lixo e foi gravado com as máquinas sujas de lama. Tanto que aquela coisa psicodélica, que as pessoas denominaram psicodelia, foi o lixo das enchentes que a gente pegou para fazer som”, lembrou Flaviola em depoimento para o livro Valsa dos Cogumelos (2022), de Rogério Medeiros.

Para compensar a precariedade técnica do estúdio, o bando do sol contava com alguns dos músicos mais engenhosos da cena, como Lula Côrtes com seu tricórdio, Zé da Flauta, Icinho, Dicinho e os guitarristas Paulo Rafael e Robertinho do Recife. Na mão deles, até folha de eucatex, cigarro, palha de coco e spray se tornaram instrumentos musicais gravados ao vivo apenas em dois canais.

O produtor Nemo Côrtes, filho de Lula que está à frente da Rede Lula Córtex, responsável pela realização do festival, avalia que o trabalho se conecta profundamente com o disco Paêbirú, lançado um ano antes pelo seu pai e Zé Ramalho. “Não só pela temática solar, mas pelo fazer coletivo, pelo tempero nordestino e pela sinestesia artística de quem entendia que fazer um disco não era só gravar música, mas construir uma obra de arte com poesia, ilustração, fotografia e tudo que a imaginação pudesse colocar nesse envelope”, diz.

Mesmo com tantas limitações, o resultado não deixou de ser instigante, já que Flaviola era um dos compositores mais talentosos da cena e trouxe um apanhado de boas melodias e muita poesia, algumas autorais e outras emprestadas. Entre os versos musicados de outros autores, estão os do próprio Lula Côrtes, em Olhos; os do russo Maiakóvski, em Balalaika; e os do espanhol Garcia Lorca, em Romance da Lua Lua, que mais tarde alcançou mais sucesso na voz de Amelinha.

SERVIÇO - Festival Lula Côrtes: 50 anos de “Flaviola e o Bando do Sol”
Quando: Nesta sexta-feira, 29/05, a partir das 21h
Onde: Brilho Cultural (rua Ulhôa Cintra, nº 122 - bairro Santo Antônio, centro do Recife)
Ingressos: R$ 65 (meia); R$ 75 (social + 1kg de alimento não perecível para doação à Cozinha Solidária Santa Luzia do MTST), e R$ 130 (inteira), disponíveis aqui.

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