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Com orquestra holandesa e percussão pernambucana, pianista Vitor Araújo entrega experiência visceral em "Toró"

Pianista pernambucano Vitor Araújo lança nesta quarta-feira (8), nas plataformas digitai,s o disco "Toró", em que é acompanhado pela Metropole Orkest com a proposta de trazer à tona o estado bruto de músicas que buscam envolver o ouvinte como um intenso aguaceiro

Allan Lopes

Publicado: 08/04/2026 às 06:00

 Em seu novo álbum

Em seu novo álbum "Toró", o pianista Vitor Araújo divide o protagonismo com a percussão e grava tudo ao vivo (Foto: Manoel Borba/Divulgação)

Batizar as coisas nunca foi fácil para o pianista recifense Vitor Araújo. “Se um dia eu tiver um filho, só dou um nome depois dos 18 anos”, diz, entre risadas. Com o seu novo álbum não foi diferente. As faixas estavam prontas, mas o título não aparecia. Até que ele se deparou com "Toró".

A palavra, vinda do tupi-guarani, nomeia o aguaceiro repentino e violento – exatamente a força bruta que o disco carrega, a partir desta quarta-feira (8), nas plataformas digitais. Mas não se engane: “Toró” não é sobre água, mas sobre a troca barulhenta, silenciosa e íntima entre quem faz música e quem se dispõe a escutá-la.

Para Vitor, a pedra bruta sempre foi mais interessante do que o diamante lapidado. Por isso, em vez de ser gravado em um estúdio, “Toró" foi registrado durante uma apresentação em Amsterdã, em 12 de junho de 2024, com apenas dois dias de ensaio. Ele estava acompanhado da Metropole Orkest – a maior orquestra permanente de jazz e pop do mundo – com 20 instrumentistas no palco.

O que se ouve é a música em seu estado visceral, com todas as imperfeições e riscos, tal qual uma tempestade que nenhum estúdio conseguiria reproduzir. "Esse trabalho pedia que fosse o primeiro take de todo mundo, não o décimo", afirma o pianista em entrevista ao Diario.

Como se a opção pelo ao vivo não fosse risco suficiente, a véspera do concerto reservou uma história digna de novela. Uma infecção no dedo anelar da mão direita de Vitor quase jogou tudo por água abaixo. A dor era insuportável e os médicos pressionaram pelo cancelamento, mas o artista encontrou outra saída.

Em uma tarde, reescreveu as digitações de suas composições para tocar sem usar aquele dedo e recorreu a uma enxurrada de analgésicos. Tudo isso no dia do seu aniversário. "Eu estou tocando com nove dedos em 95% do disco”, revela.

A reputação de Vitor Araújo como um dos pianistas mais importantes do país não vem só da habilidade nas mãos, mas pela maneira como sua música conversa com o que está fora dela. Em "Toró", esse traço se manifesta quando Pernambuco assume o centro do trabalho, com maracatu, coco e afoxé. 

Para isso, o pianista convocou um time de percussionistas de peso, entre eles o recifense Amendoim, discípulo de Naná Vasconcelos. “Nesse trabalho, quem brilha na excelência instrumental são as percussões. O piano serve como uma base que dá sustentação harmônica”, destaca.

"Toró" é quase todo instrumental. Quase. Porque quando Vitor Araújo solta a voz, sem nunca formar palavras, ela aparece como um falsete que boia sobre os tambores. É mais uma camada do emaranhado de ritmos que não obedecem a uma narrativa, mas convidam o ouvinte a criar a sua.

As músicas são longas, todas com cerca de oito a dez minutos, e passeiam por diferentes paisagens sonoras sem pressa de chegar a lugar nenhum. “Há uma explosão de sonoridades para ser decodificada pelo público, cada um à sua maneira”, diz Vitor.

Com arcos longos de pensamento e uma aposta na escuta ativa, o trabalho se posiciona contra a lógica do consumo rápido. Por tudo isso, não adianta colocar para tocar enquanto se faz outra coisa. “É um disco que não tem medo de ser grande e de exigir atenção. É um gesto contra a correnteza”, argumenta o músico. "É algo que o público vai ter que descobrir por si só o que aquilo significa. E isso me deixa muito feliz. Estou muito curioso para ver como é que ele vai impactar as pessoas”, conclui.


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