Última turnê de Roberto Menescal chega ao Recife buscando renovar a bossa nova: "Tenho saudade do futuro"
Consagrado como um dos fundadores da bossa nova, Roberto Menescal busca renovar o gênero na turnê "Bossa Sempre Nova", que chega ao Recife no domingo (29). Aos 88 anos, o músico sobe ao palco do Teatro RioMar, às 20h, ao lado de Patty Ascher e Danilo Caymmi
Publicado: 27/03/2026 às 17:00
"Bossa Sempre Nova" é a última grande turnê de Roberto Menescal (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)
O sol começava a se pôr sobre Copacabana quando um grupo de jovens chegava ao apartamento de Nara Leão com violões e a vontade de cantar um Brasil mais ensolarado. Entre um acorde e outro, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, João Gilberto, Roberto Menescal e outros foram dando forma a uma estética que viria a ser conhecida como bossa nova.
Aos 88 anos, Menescal é o único remanescente do grupo para contar essa história em primeira pessoa no show “Bossa Sempre Nova”, que faz parte da sua última grande turnê. Ela chega ao Recife no domingo (29), às 20h, no Teatro RioMar, onde o músico se apresenta ao lado de Danilo Caymmi e Patty Ascher, prometendo revisitar os clássicos com novos arranjos e harmonias.
Atento ao que os mais novos andam produzindo, Menescal não se deixa seduzir pela nostalgia. “Falam pra mim: ‘Puxa, aquele tempo de vocês é que era bom’. Era bom, sim. Mas eu já fiz isso. Eu não quero ficar com saudade daquele tempo. Eu tenho saudade do futuro. Do que está chegando”, afirma o artista capixaba em entrevista exclusiva ao Diario.
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Por isso, vem se cercando de talentos da nova geração, como o pianista Theo Bial, com quem fará um show, e Sofia Gilberto, neta de João Gilberto, que aos 10 anos já dividiu estúdio com o veterano. “Eu quero muito o hoje, e não o ontem”, sublinha.
Com esse olhar voltado para o presente, o show – idealizado por Patty Ascher, paulistana apadrinhada por Menescal e radicada em Las Vegas – foi intitulado de “Bossa Sempre Nova”. Completando o trio, o pianista Danilo Caymmi representa a continuidade do legado do seu pai, Dorival.
Em apresentações realizadas nos Estados Unidos, Menescal constatou que a renovação não está apenas na sonoridade, mas também no prestígio que a música brasileira segue conquistando. “A gente fez uma lembrança de como foi aquele show no Carnegie Hall, em 1962, quando a bossa nova foi lançada lá. E também estava lotado. Nossa música continua muito bem no mundo.”, relata ele.
A capacidade de adaptação dessa malemolência é, na visão de Menescal, o que lhe garante a longevidade entre gerações. “O pessoal está gostando muito porque se identifica. Cantam junto, e ao mesmo tempo, estão ouvindo novas harmonias. Estamos no caminho certo”, avalia. No palco, serão entoadas canções que atravessaram décadas: “O Barquinho”, “Você”, “Rio”, “Vagamente”, “Andanças”, “Casaco Marrom”, “Chega de Saudade”, “Desafinado”, “Água de Beber”, “The Look of Love” e, claro, “Garota de Ipanema”.
O repertório que Menescal apresenta no Recife é fruto de uma rebeldia frente ao tom depressivo nas composições de samba-canção, a exemplo de “Ninguém Me Ama”, de Antônio Maria e Fernando Lobo, na voz de Nora Ney. “Você imagina a gente com 18, 19 anos cantando aquilo? Não dava, né?”, indaga. “Mesmo quando pareciam felizes, eram tristes demais. Então começamos a fazer música para fugir desse baixo astral”, explica o artista.
Recife encerra a primeira etapa da turnê, mas o calendário de Menescal segue cheio. Além de novas cidades no segundo semestre, ele já se prepara para apresentar em São Paulo, no próximo sábado (4), o show “A Nossa Bossa Nova” ao lado de Theo Bial e MassaTrio, com a vitalidade de dar inveja a qualquer jovem. “Estou muito feliz da vida. Muito, muito”, vibra ele. “Eu fico me cobrando: ‘O que tenho de novo?’. Aí tenho que fazer. E estou fazendo”, conclui.