Banda pernambucana Ave Sangria receberá indenização do Estado brasileiro por censura na ditadura
Na manhã desta quinta-feira (26), o Estado brasileiro concedeu anistia à banda pernambucana Ave Sangria por conta da censura imposta ao disco homônimo do grupo em 1974. Por meio da decisão, o Estado formalizou um pedido de desculpas e estabeleceu uma indenização para o integrantes da banda
Publicado: 26/03/2026 às 16:03
Marco Polo e Almir de Oliveira são os remanescentes vivos da formação original da Ave Sangria (Foto: Crysli Viana/DP Foto)
A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos aprovou nesta quinta-feira (26) a anistia à banda pernambucana Ave Sangria, que teve seu primeiro disco censurado pela Ditadura Militar em 1974. Na ocasião, o grupo vivia seu auge, mas a censura imposta pelo regime interrompeu bruscamente a ascensão, arruinou as finanças da banda e mergulhou seus integrantes em um quadro de depressão que levou o projeto ao fim.
No Recife, os fundadores Marco Polo (vocalista) e Almir de Oliveira (baixista e violonista) acompanharam a votação do julgamento em Brasília através de transmissão no Memorial da Democracia, no Sítio Trindade, onde o resultado foi recebido com festa e celebração.
O Estado brasileiro, por meio da decisão, formalizou um pedido de desculpas e estabeleceu uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil, cujo montante retroativo ainda será calculado, como reparação pela interrupção do vínculo de trabalho decorrente da perseguição sofrida pelos artistas.
As famílias do baterista Israel Semente e do guitarrista Paulo Rafael, ambos falecidos, também foram contempladas. "É uma sensação de alívio, porque durante todo esse tempo a gente sentia injustiça do Estado em relação a nós", comemora o vocalista e compositor Marco Polo, em entrevista ao Diario, logo após a divulgação do resultado.
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CENSURA
Clássico cultuado hoje, a canção “Seu Waldir” tornou-se o símbolo máximo da censura imposta pela ditadura à banda. A sétima faixa do álbum de estreia, intitulado “Ave Sangria” (1974), trazia versos românticos que pareciam inofensivos: “Seu Waldir, o senhor magoou meu coração. Seu Waldir, isso não se faz, não”.
Aprovado a princípio pelos censores da Polícia Federal, o disco chegou às lojas do Recife e rapidamente emplacou entre as mais tocadas das rádios. O sucesso, porém, durou pouco. A imprensa transformou a música em alvo sistemático, sob a acusação de ter um suposto teor “homossexual” na letra e de ser “um insulto à moral da família tradicional pernambucana”.
De acordo com relato de Marco Polo e Almir, a campanha diária surtiu efeito e a esposa de um general pediu ao marido que agisse. O militar acionou a Polícia Federal e, no dia seguinte, todos os discos foram retirados das lojas e das rádios. Até então, a perspectiva da Ave Sangria era subir cada vez mais nas paradas e, com isso, investir em equipamentos. Em vez disso, veio o desmoronamento financeiro, emocional e moral. "Foi um choque terrível", relembra Almir. Ele precisou voltar à engenharia e abandonar o sonho de ser músico. Marco Polo, por sua vez, retornou ao jornalismo.
A suspeita de homossexualidade em torno de "Seu Waldir" foi apenas um dos exemplos da perseguição que a Ave Sangria sofreu. Em outra ocasião, os integrantes foram detidos de forma violenta apenas por usarem cabelo comprido. Estavam em um bar, tomando cerveja, quando a polícia os cercou e os jogou em um camburão. “Éramos de um segmento que, embora politizado, estava mais preocupado com uma revolução comportamental. A questão moral atingiu justamente isso, que era a nossa proposta”, avalia o vocalista.
RESGATE
A banda renasceu na década de 2000, quando foi redescoberta pelas novas gerações por meio da internet. Em 2019, impulsionada por esse movimento, lançou “Vendavais”, o seu segundo álbum, vivendo um segundo renascimento. Agora, com a anistia, veio o terceiro e mais importante: “Amplia ainda mais o leque de possibilidades para a gente trabalhar e incentivar a juventude e o povo brasileiro a ser aquilo que eles são, a lutar pelo direito de ter o seu próprio caminho. Viva a Ave Sangria!”, vibra Almir.
Pedro Alb Xavier, gestor do Memorial da Democracia de Pernambuco, destaca a importância de reunir perseguidos pela ditadura no local. "O Memorial é um espaço seguro onde o Estado reconhece o passado e o promove para que essa memória não se perca”, afirma. Segundo ele, o reconhecimento à Ave Sangria também se estende à cultura pernambucana, que teria mais uma banda de destaque nacional. "É para a gente ficar triste porque isso não foi adiante, mas também feliz porque é um reconhecimento da nossa cultura”, conclui.