Três clássicos de Machado de Assis viram teatro no Janeiro de Grandes Espetáculos
Janeiro de Grandes Espetáculos começa nesta quarta-feira, destacando adaptações teatrais de três obras de Machado de Assis na primeira semana
Publicado: 07/01/2026 às 06:00
"Memórias Póstumas de Brás Cubas" é protagonizado pelo ator Marcos Damigo (Foto: Alex Silva)
Caro leitor, ou antes, leitora benévola, informo-lhe de um fato singular. Não uma, mas três das mais agudas criações de Machado de Assis, que é, talvez, o mais consagrado dos escritores brasileiro, ressuscitarão em carne, osso e voz nesta primeira semana do 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, que começa nesta quarta-feira e segue até 4 de fevereiro. O evento decidiu apresentar ao seu variado público – aos graves e aos frívolos – adaptações teatrais de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e “O Alienista”.
Se o tom acima lhe parece familiar, não é obra do acaso. A escolha por iniciar esta matéria com as maneiras e vícios de linguagem do próprio Machado, especialmente a partir da perspectiva do “defunto autor” Brás Cubas, é uma forma de dialogar, desde as primeiras linhas, com o universo que não só resiste ao tempo como se renova e convida à reinterpretação, seja na literatura ou, como veremos a seguir, no teatro.
Nesta edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, o público encontrará um mergulho profundo na obra do autor. O curador do evento, Paulo Castro, defende a presença desses clássicos na programação, ressaltando sua importância para a formação cultural. “É algo muito gratificante, ainda mais por partirem de olhares diferentes. São leituras que vêm de lugares distintos: uma de São Paulo, outra de Maceió e outra do Recife”, diz Paulo em entrevista ao Diario. Sendo assim, irão conviver no palco as variadas, e por vezes contraditórias, perspectivas que a escrita de Machado é capaz de suscitar.
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A representante pernambucana na programação é uma adaptação vibrante de “Dom Casmurro”, assinada pelo dramaturgo recifense Moisés Monteiro de Melo Neto. Encenado amanhã e quinta-feira, sempre às 20h, no Teatro Capiba, o espetáculo mergulha nas relações de amor, traição e desconfiança entre Bentinho e Capitu, revelando os intrincados jogos de poder, desejo e tensão social que definiam a época.
Já o grupo alagoano Cena Livre apresenta “O Alienista, Casa de Loucos” em sessão única no sábado, às 20h, no Teatro Apolo. A montagem de Mauro Braga traz um baterista ao vivo, com direito a uma trilha inédita, usando sons anti-musicais e textos fora de contexto como contraponto irônico à narrativa.
Com quase cem sessões desde a estreia, a adaptação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, dirigido por Regina Galdino, apresenta na sexta-feira, às 19h, no Teatro do Parque, um Brás Cubas bem-humorado, irreverente, egoísta e amoral na pele de Marcos Damigo.
Em um solo inquieto, o ator dialoga com a plateia, canta, dança, discorre sobre seus envolvimentos amorosos e episódios de sua vida. “A peça tem uma certa virtuose no modo como a Regina dirigiu com as músicas cantadas ao vivo, danças e movimentação acrobática que eu executo em cena enquanto falo o texto. Eu não paro um minuto em cena, e isso é uma das coisas que surpreende bastante o público”, relata Marcos ao Diario.
O recorde de público do espetáculo foi no Festival de Inverno de Garanhuns, diante de quase 500 espectadores. Agora, a meta no Recife é superar essa marca. “Sinto que vivenciar essa história junto com outras pessoas traz mais relevância para certos sentidos dela, especialmente no riso que ela provoca”, explica o ator. “O próprio livro é muito atual, pois esse tipo que o Machado descreve no livro é facilmente reconhecível em muitas figuras públicas. Brás Cubas facilmente seria hoje um influenciador digital, e isso cria um canal de comunicação muito forte com as gerações mais novas”, completa.
ESTA SEMANA
Com o tema “Da Lama ao Palco”, o Janeiro rende homenagem a Chico Science, que, em 2026, celebraria 60 anos. Por conta disso, a abertura ocorre nesta quarta, no Teatro de Santa Isabel, às 20h, inspirada na estética que o Movimento Mangue implantou na cidade.
Somente nesta primeira semana, serão realizados 25 espetáculos e 29 sessões. Na programação de teatro adulto são 11 atrações: além das três adaptações de Machado de Assis, também serão apresentadas “Ophélia”, “A Paixão Segundo José Francisco Filho”, “Hermanos - Uma Comédia de Irmãos”, “A Divina & O Esplendor - Uma Farsa Forçada”, “Moinho”, “Auto da Compadecida - Uma Farsa Modernesca”, “Vossa Mamulengecência” e “O Último Cigarro”.