Educação ambiental reforça prevenção a incidentes com tubarões no Grande Recife durante férias de julho
Primeira ação de prevenção e conscientização ambiental aconteceu na manhã desta sexta-feira (3), na Praia de Piedade, nas proximidades da igrejinha, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife
Publicado: 03/07/2026 às 13:21
Educação-ambiental-Igrejinha-Piedade.Jpeg (Foto: Rafael Vieira/DP)
“As crianças têm vontade de entrar no mar, mas não podem.” O desabafo é da banhista Dayane Santos, de 29 anos, ao comentar as restrições ao banho de mar nas praias da Região Metropolitana do Recife em razão do risco de incidentes com tubarões.
Com a chegada das férias escolares e o aumento da circulação de pessoas nas praias do Grande Recife, a Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, recebeu nesta sexta-feira (3) a primeira ação da programação de educação ambiental e segurança do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT) e instituições parceiras.
Realizada nas proximidades da Igrejinha de Piedade, a iniciativa reuniu pesquisadores, voluntários e educadores ambientais para orientar moradores e turistas sobre os riscos existentes na área de monitoramento de tubarões, além de explicar o comportamento dos animais e as medidas necessárias para um banho de mar seguro.
O cenário observado pela reportagem do Diario de Pernambuco refletia o clima de cautela.
Mesmo em pleno período de férias, a Praia de Piedade registrava movimento reduzido de banhistas. A maior parte dos frequentadores preferia caminhar ou praticar corrida na orla e na faixa de areia, enquanto poucos alugavam piscinas para aproveitar o dia de sol.
Durante toda a ação educativa, policiais militares e agentes da Guarda Civil Municipal realizaram patrulhamento preventivo em quadriciclos, reforçando as orientações de segurança e o monitoramento da área.
O mês de julho, que registra um aumento significativo no fluxo de banhistas, é historicamente o que concentra o maior número de incidentes com tubarões em Pernambuco. Os especialistas explicam que isso acontece devido à combinação entre condições ambientais, continuidade do período chuvoso e características do mar. O que exige atenção ainda mais redobrada.
Famílias evitam o mar
Entre os frequentadores, na Praia de Piedade, nesta sexta, estava Dayane Santos, acompanhada do marido e dos dois filhos. Frequentadora do local, ela afirma que nunca permite que as crianças entrem no mar.
“A gente vem, mas fica só na piscina. As crianças têm vontade de entrar no mar, mas não podem. Depois de tudo o que aconteceu, não temos coragem.”
Para ela, ações educativas ajudam principalmente quem ainda desconhece os riscos.
“Tem gente que não acredita ou acha que não acontece. Quando vê esse trabalho de conscientização, acaba entendendo melhor o perigo.”
Quem também voltou à praia durante as férias foi Renato César Silva, de 39 anos. Natural do Recife e atualmente morando no Paraná, ele levou os pais e os dois filhos para passar o dia em Piedade.
Ao chegar, encontrou um cenário bastante diferente daquele que conhecia anos atrás. Segundo ele, a praia, que antes era conhecida pelo grande movimento de famílias e banhistas, hoje transmite uma sensação de vazio e insegurança.
“Fazia alguns meses que eu não vinha para cá. A primeira sensação é de frustração. A gente lembra dessa praia cheia, com música ao vivo, muita gente tomando banho, crianças brincando. Hoje você chega e encontra uma praia praticamente vazia. Para quem mora fora e volta, a diferença é muito grande.”
Sem poder entrar no mar, a alternativa encontrada pela família foi utilizar a piscina de uma barraca.
“A gente acaba tendo que pagar uma piscina para os meninos se divertirem. Viemos para pegar um sol, descansar um pouco, mas o banho de mar não faz parte dos planos. Já saímos de casa sabendo que aqui não vamos entrar na água.”
Renato conta que os próprios filhos já aprenderam a conviver com as restrições impostas pela área de risco.
“Meu filho de cinco anos pediu para vir à praia. O de nove respondeu logo: ‘A gente não vai tomar banho porque tem tubarão’. É triste ver uma criança dessa idade já crescer com esse entendimento. É uma educação que veio pela necessidade.”
Para proporcionar um banho de mar às crianças, muitas vezes ele precisa percorrer dezenas de quilômetros até outras praias do litoral sul.
“Na última vez precisei ir até Porto de Galinhas. É mais combustível, mais pedágio, mais gasto. Quem mora aqui acaba tendo que procurar outras praias para oferecer essa experiência aos filhos.”
Morando atualmente no Sul do país, Renato afirma que os incidentes registrados em Pernambuco também repercutem fora do Estado.
“Quando digo que estou vindo para Recife, muita gente pergunta se realmente tem tubarão nas praias. Eu explico que existem áreas específicas de risco, mas essa imagem acaba ficando para Pernambuco inteiro.”
Na avaliação dele, ações educativas como a promovida pelo CEMIT precisam chegar também às escolas.
“Esse tipo de trabalho deveria acontecer tanto nas escolas públicas quanto nas particulares. Quanto mais cedo as crianças entenderem por que existem essas restrições e como aproveitar o mar com segurança, melhor.”
Comércio sente reflexos da redução de banhistas
Há 31 anos trabalhando na faixa de areia da Igrejinha de Piedade, o barraqueiro José Ivan dos Santos, de 53 anos, afirma que a rotina da praia mudou completamente ao longo das últimas décadas.
Segundo ele, antes dos primeiros incidentes registrados na região, a movimentação era intensa. Hoje, muitos visitantes evitam permanecer na praia por receio de entrar no mar.
“O movimento caiu muito. Comparando quando comecei a trabalhar até hoje, a diferença é enorme. Já presenciei cerca de 15 incidentes e é uma cena horrível. Ver pessoas sendo retiradas da água gravemente feridas é algo que ninguém esquece.”
Apesar dos impactos econômicos, ele considera que as ações educativas são fundamentais.
“Toda campanha é importante para orientar a população. Quanto mais informação chegar aos banhistas, melhor. Quando alguém pergunta sobre o mar, a gente logo avisa que é área de risco e orienta a não entrar.”
A percepção é compartilhada pelo também barraqueiro Eronildo, de 56 anos, que trabalha há três décadas na região.
Segundo ele, o comércio perdeu cerca de 70% do movimento desde que os incidentes passaram a ganhar repercussão.
“Hoje quem vem já sabe que não pode entrar no mar. O pessoal lava os pés e volta. Se alguém entra com a água no joelho, os próprios frequentadores já alertam. O medo ficou na cabeça das pessoas.”
Para ele, campanhas como a realizada nesta sexta ajudam a reforçar uma mensagem que precisa ser permanente.
“As pessoas já sabem dos riscos, mas conversar mais é sempre melhor. Informação nunca é demais.”
Educação ambiental aproxima população da ciência
Durante a atividade, visitantes puderam conhecer réplicas, mandíbulas, embriões e outros materiais biológicos utilizados pelos pesquisadores para explicar o comportamento dos tubarões.
A médica veterinária Ariane Gomes, voluntária do Núcleo de Educação Ambiental Professor Fábio Hazin, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica que o objetivo é transformar a curiosidade do público em conhecimento.
“As pessoas chegam atraídas pelas peças e começam a fazer perguntas. A partir daí falamos sobre o comportamento dos tubarões, os riscos do banho, as medidas de prevenção e também desmistificamos muitas informações equivocadas.”
Segundo ela, uma das dúvidas mais frequentes envolve a chamada mordida exploratória.
“O tubarão enxerga bem, mas, quando a água está muito turva, ele pode não conseguir identificar corretamente o que está à frente. Como não tem mãos, utiliza a boca para reconhecer aquilo. O problema é que uma mordida de um animal com quase três metros pode provocar lesões gravíssimas.”
Entre os exemplares apresentados estavam o tubarão-cabeça-chata, responsável pela maior parte dos incidentes registrados no Estado, além de materiais do tubarão-tigre, do tubarão-lixa, do tubarão-raposa e do tubarão-mako.
Ariane também chamou atenção para outra característica da Praia de Piedade.
“Aqui existe uma área de desova de tartarugas. O tubarão-tigre se alimenta delas e essa disponibilidade de alimento ajuda a explicar a presença frequente dessa espécie na região.”
Mesmo diante das orientações, algumas pessoas insistem em entrar na água. Segundo ela, quem faz esse tipo de ação acaba colocando a própria vida em risco.
“Quem faz isso está colocando a própria vida em risco. Felizmente existe fiscalização e apoio das forças de segurança para retirar quem desrespeita a sinalização.”, afirmou.
Conhecimento científico ajuda a compreender os riscos
A bióloga Mariana Cruz, de 26 anos, acompanha pesquisas com tubarões desde 2019 e explica que grande parte dos incidentes está relacionada às características naturais da costa pernambucana.
“Nossa água é bastante turva. O tubarão percebe o movimento, identifica que existe um animal ali, mas muitas vezes não consegue distinguir exatamente o que é. Ele realiza uma mordida investigativa e, quando percebe que não faz parte da alimentação habitual, normalmente solta.”
O problema, segundo ela, é que a força da mordida pode provocar amputações e hemorragias graves. Mariana destaca ainda que compreender o comportamento da espécie é fundamental para reduzir acidentes.
“Conhecimento salva vidas. Quanto mais a população entende como esses animais vivem e como devemos nos comportar no mar, menores são os riscos.”
A programação do CEMIT continua ao longo de julho com novas ações educativas nas praias de Boa Viagem, Piedade e Del Chifre, reforçando orientações de segurança para moradores e turistas durante todo o período de férias.