Novo espaço de convivência da terceira idade do Recife ressignifica história marcada por violência contra idosos
Casarão histórico foi transformado no Centro de Convivência da Pessoa Idosa Maria da Conceição Guedes Pereira, antiga dona do imóvel que foi vítima de violência senil
Publicado: 24/01/2026 às 16:22
Novo espaço de convivência da terceira idade do Recife ressignifica uma história marcada por violência contra idosos (Foto: Marina Torrres/DP Foto)
Quem hoje viu a inauguração do Centro de Convivência da Pessoa Idosa Maria da Conceição Guedes Pereira, na Zona Norte do Recife, não imaginava a história desse espaço, que não começou nesta sexta (23), mas sim há quase 20 anos. O aparelho leva o nome de uma pessoa cujo legado é presente na luta pela dignidade e qualidade de vida na terceira idade na cidade até hoje.
Os últimos capítulos da vida de Maria da Conceição foram marcados por violência e negligência. Hoje, um capítulo póstumo começou a ser escrito, ressignificando os anteriores, e trazendo dignidade para a memória dela.
Como tudo começou
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE), só veio tomar consciência da situação vivida por Maria da Conceição em 2007, após uma denúncia de que ela estaria sendo vítima de maus-tratos, e roubada dentro da própria casa. Impossibilitada de sair, familiares sacavam o dinheiro da aposentadoria dela, que em nada se revertia para o benefício da senhora, que já tinha quase 90 anos.
“Começou em 2007. Chegou uma denúncia que foi encaminhada pela Caixa Econômica Federal, o gerente Álvaro Bivar percebeu que a idosa não estava comparecendo à agência e a conta dela estava sendo movimentando com retiradas bem significativas. Aí ele ligou para casa dela e não pode falar com ela”, contou ao Diario a Promotora de Justiça Luciana Dantas, que acompanhou o caso.
Segundo a magistrada, o Ministério Público tentou verificar a situação de Maria da Conceição, mas não conseguiu sequer entrar na casa. Posteriormente, só foi possível entrar com a polícia, ela conta. A família que morava com Maria fugiu.
“Tiveram que arrombar a porta e encontraram a idosa no leito. Ela foi vítima de uma queda e fraturou o fêmur, e estava há vários dias em cárcere privado, sem nenhum cuidado, cirurgia ou remédio, sofrendo de dor. Ela gritava de dor. Tinha quase 90 anos, já era bem idosa, mas perfeitamente lúcida”, explica Luciana.
A partir daí, Maria da Conceição foi acompanhada pela assistência social do Ministério Público. Não conseguiu mais voltar a andar, em função do tratamento errado após a queda, mas seguiu lúcida.
A promotora Luciana relatou uma das partes mais tristes da trajetória: O MPPE tentou contactar familiares para cuidarem da senhora, mas ninguém se dispôs.
“O Ministério Público foi ao hospital para escutá-la, e ela disse que queria retornar à casa dela e que ela queria morrer inclusive na casa dela. Ela indicou alguns supostos parentes, que foram procurados, mas afirmaram não ter obrigação de acompanhá-la”.
Diante da falta de afeto e apoio familiar, o Estado tornou-se a família de Maria. Durante anos, promotores, assistentes sociais e o próprio gerente do banco, que denunciou a situação, fizeram as visitas frequentes para ela. Ela viveu na casa, recebendo os devidos cuidados e usufruindo do dinheiro da própria aposentadoria, até falecer em 2013, com mais de 100 anos.
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O pedido
Dona Maria, mesmo na imobilidade do leito, manteve a lucidez necessária para pedir o futuro que, não veria em sua propriedade, mas que sabia que seria importante para outras pessoas. Ela queria que a casa onde ela viveu pudesse ter um sentido especial para os idosos.
“Eu registrei nesse termo de audiência essa vontade que ela expressou tanto para assistente social do Ministério Público como para Álvaro. Ela disse várias vezes: ‘Eu não quero que isso aconteça com mais ninguém, não quero que outras pessoas idosas venham a sofrer essa violência que sofri. Eu queria que essa casa, quando eu morresse, servisse de um lugar para a cultura, para a aula, para os idosos se encontrarem, serem amigos de outras gerações’”, relembrou a promotora Luciana.
O desejo de Dona Maria, que era uma ex-pianista do Conservatório Pernambucano de Música, apaixonada pela arte e pela cultura, hoje se tornou realidade. Entre a morte dela e a inauguração do espaço, passaram-se 13 anos.
O imóvel enfrentou o tempo, desgaste estrutural, gestões e até ocupações, mas finalmente foi ressignificado como um equipamento público onde a velhice é celebrada, acolhida e respeitada.
“Após a morte dela, passamos a casa para a Prefeitura do Recife, e chamamos o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Recife. O conselho abraçou essa luta. Fizemos audiências públicas, na Câmara de vereadores do Recife, vários vereadores abraçaram a causa. Mas eu tinha certeza que a gente ia conseguir um dia. Hoje eu me sinto muito feliz de ver isso sendo devolvido ao povo do Recife”, compartilhou a Promotora Luciana.
O novo Centro de Convivência da Pessoa Idosa do Recife não é apenas uma entrega de gestão. É o cumprimento de um testamento espiritual deixado por uma mulher que passou por situações cruéis e, ainda assim, teve a generosidade como última palavra.
“Um casarão histórico que tem uma história bonita e única no Recife. Um casarão que pertencia à Dona Maria da Conceição, uma senhora que faleceu com mais de 100 anos, que não tinha herdeiros direitos. Ela passou por maus-tratos e precisou de uma intervenção do Ministério Público, da Justiça e do Estado Brasileiro. Ela manifestou o interesse que esse imóvel fosse passado para a Prefeitura para ter uma utilização com fins públicos. E isso foi concretizado e depois, passou-se ainda por alguns desafios, e a gente conseguiu fazer com que o projeto fosse feito”, disse o Prefeito João Campos (PSB), durante a inauguração.
Segundo o chefe do executivo municipal, o projeto oferece 13 atividades e terapias fixas para os idosos, como acupuntura, meditação, fitoterapia, homeopatia, Reiki e biodança. No espaço também estão disponíveis salas de leitura, jogos, música e dança, além de cinema. A praça do lado externo da casa tem uma praça aberta para toda a população.
Ressignificar
Entre as tantas pessoas idosas que estiveram na inauguração, Severina Calisto, de 89 anos, foi uma delas. Moradora do UR-07, na Zona Oeste do Recife. Acompanhada de duas amigas, Julieta Barbosa, de 73, e Edna Gomes, de 60, Severina conta que não quis ficar de fora da convivência: “Eu achei uma maravilha o espaço. Não perco um grupo de terceira idade”.
Durante o evento de inauguração, a história de Maria Conceição foi relembrada e homenageada. Muitas pessoas, assim como Severina, não conheciam.
“Não conhecia, eu vim saber hoje. Ela sofreu tanto, mas deixou essa alegria para a gente da terceira idade. Me sinto bem de estar aqui e de saber que a vontade dela foi feita”, compartilhou.