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Cinema

Na fronteira das aparências

Brasil profundo em suas contradições e hipocrisias volta a ser tema da filmografia de Carolina Markowicz no seu cômico e dolorido ''Pedágio'', com Maeve Jinkings no papel principal

Publicado em: 30/11/2023 06:00 | Atualizado em: 30/11/2023 09:53

Suellen (Maeve Jinkings), que se culpa e se envergonha diariamente por ter um filho gay (Divulgação)
Suellen (Maeve Jinkings), que se culpa e se envergonha diariamente por ter um filho gay (Divulgação)
O ambiente que cerca o jovem Antônio (Kauan Alvarenga), de 17 anos, é tão desconvidativo e opressor quanto sua vontade de se libertar dele, nem que seja através dos vídeos que faz cantando e dançando nas redes sociais. A repercussão dessas gravações, no entanto, incomodam cada vez mais a sua mãe-solo, Suellen (Maeve Jinkings), que se culpa e se envergonha diariamente por ter um filho gay. Trabalhando como cobradora de pedágio, ela recebe a sugestão de uma amiga para levar o adolescente a um pastor que está abrindo turmas de “cura” na região e, devido aos custos elevados do tratamento, a mãe entra em um esquema criminoso junto com seu namorado (Thomas Aquino) para levantar dinheiro rápido.

Segundo longa-metragem de Carolina Markowicz, que lançou no ano passado o cortante e ousado Carvão (também protagonizado por Maeve), Pedágio, em cartaz, caminha por um terreno temático e visual semelhante ao último projeto da diretora. Enquanto naquele filme – sobre uma família interiorana que tomava uma decisão chocante para abrigar um mafioso estrangeiro em sua casa – ela subvertia tudo o que se imagina de um drama doméstico ruralista, aqui ela revela novamente a hipocrisia de seus personagens, só que, desta vez, através do prisma emocional de um jovem que, no entrave de aparências do mundo adulto, só quer ser ele mesmo.

Visualmente irretocável – destaque para a poluição do ar provocada pelos complexos industriais intoxicando a fotografia e as assustadoramente cômicas e absurdas cenas da “cura gay”, filmadas em planos simétricos e opressivos –, Pedágio é um estudo dolorido, ainda que ocasionalmente doce, sobre um amor maternal que está sempre embaralhado com a real doença trazida no roteiro: a intolerância. A diretora/roteirista faz um trabalho exemplar ao não vilanizar Suellen e retratá-la como um amálgama de várias mães Brasil adentro. As interpretações de Maeve e Kauan refletem bem essa ambiguidade da relação de mãe e filho, na qual proteção se confunde com repressão e culpa se mistura com autovalidação.

Esse cenário do pedágio, por conseguinte, não poderia ser escolhido com maior precisão por Markowicz, haja vista que todos os principais personagens estão de alguma maneira cruzando – ou tentando cruzar – a linha entre certo e o errado para conquistar o seu lugar no mundo ou, em última instância, o lugar que os outros projetam neles.

Conversando com o Viver a respeito de como achar essas nuances a partir desse tema, a diretora falou sobre os temas que lhe interessam e a forma de retratá-los através da linguagem. “Essas máscaras sociais, performances e teatralizações do país são temas que me interessam muito e que estou sempre tentando aprender mais, especialmente falando de personagens que são tão diferentes de mim. O rigor na forma é para mim é essencial nisso tudo e eu tento nesses dois filmes fugir um pouco da estética que se espera desses filmes. E, sobretudo nessas cenas da ‘cura’, é tudo tão bizarro e absurdo – ao mesmo tempo tão real no nosso país – que a gente tinha que olhar com um certo humor ácido talvez para compreender melhor tudo aquilo”, explica. 

“Desde o começo me interessou muito o fato do roteiro não pintar Suellen como uma personagem religiosa ortodoxa, que seria talvez mais uma caricatura ou simplesmente algo que a gente já viu. O ponto nesse filme é justamente como as pessoas reproduzem preconceitos e violências de uma maneira quase mecanizada, e não necessariamente por ideologia. Essa personagem, no fim, reúne todos os elementos complicados da vida de uma mãe brasileira média, que ainda por cima é mãe-solo, periférica e tem de lidar com um trabalho que a explora e paga pouco. Mergulhar, então, nessa violência que ela redireciona para o filho é um trabalho doloroso, mas que nesse filme existe com um propósito”, conta Maeve sobre sua protagonista. 

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