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CINEMA

O motor da vingança

Ação ensandecida do diretor George Miller retorna com 'Furiosa: Uma saga Mad Max', que expande escala e mitologia em odisseia de origem da personagem icônica

Publicado em: 23/05/2024 06:00 | Atualizado em: 23/05/2024 10:18

 (Apesar de narrativa mais segmentada do que 'Estrada da fúria', a ação continua suprema. Warner/Divulgação)
Apesar de narrativa mais segmentada do que 'Estrada da fúria', a ação continua suprema. Warner/Divulgação

O mundo distópico criado pelo cineasta George Miller no primeiro e ainda muito modesto Mad Max, de 1979, é um dos mais influentes da história do gênero e foi notoriamente um reflexo brutal da crise do petróleo, então descoberto como fonte esgotável. Seguido por duas continuações, lançadas em 1981 e 1985, esse universo parecia passado até 2015, quando o diretor reequacionou o conceito e exponenciou seu impacto com Mad Max: Estrada da fúria, no qual a mudança de uma distopia próxima para um mundo pós-apocalíptico de insanidade superlativa tem um componente de escassez fundamental além do combustível: a água.

 

Vencedor de 6 estatuetas no Oscar e consagrado rapidamente como clássico contemporâneo do cinema de ação, Estrada da fúria deixou numerosos admiradores aguardando por uma expansão – e, após 9 anos, ela chega com o filme de origem Furiosa: Uma saga Mad Max, em cartaz, e aqui o motor já não soa mais qualquer tipo de escassez de recurso, mas de uma sensação de pertencimento, de busca por seu lugar.

 

A personagem vivida originalmente por Charlize Theron é aqui interpretada na juventude por Anya Taylor-Joy. Sequestrada ainda pequena por uma gangue de motoqueiros e levada do farto Lugar Verde das Muitas Mães, Furiosa cai nas mãos do líder tirânico Dementus (Chris Hemsworth), que, por sua vez, desafia o já conhecido vilão Immortan Joe (Lachy Hulme) pelo controle da Cidadela. Ao mesmo tempo que busca vingança, a protagonista jamais esquece da missão de reencontrar e manter em segredo o caminho para o paraíso em que vivia.

 (Warner/Divulgação)
Warner/Divulgação

Dada uma carreira tão impressionante em versatilidade (que inclui a oscarizada animação Happy Feet), é esperado que Miller se preste à altamente arriscada tarefa de competir consigo mesmo. Seu feito com Estrada da fúria é tão incomparável que nem seu nome afasta a desconfiança de um possível desapontamento. Felizmente, não demoram 5 minutos para que qualquer incerteza desapareça: a inspiração, escala e pulso com que o diretor, novamente, imerge o espectador em sua iconografia se manifesta desde a simples perseguição de moto que abre Furiosa até as ensandecidas sequências envolvendo múltiplos veículos deserto adentro.

 

Dividido em cinco capítulos que preenchem quase 2 horas e meia de duração, o filme conta com uma jornada segmentada em grandes blocos de ação, diferente de Estrada da fúria, que se movimentava em praticamente um único núcleo perseguições quase ininterruptas. A ação é mais expansiva do ponto de vista de cenários – que aumentam a credibilidade desse mundo sem precisar explicar quase nada – mas a dor de sentir ruir a possibilidade de recuperar o que lhe foi tirado nesse fim do mundo causticante é um conflito até mais intimista.

 

Essa decisão de separar a trama em fragmentos deixa sequela no engajamento emocional da segunda metade, mas condiz com o intervalo de tempo compreendido pela saga da Furiosa, de uma criança levada de casa até uma mulher com sangue nos olhos – e a violenta progressão da história, da esperança da personagem em voltar para o paraíso até a o vazio da vingança, é envolvente o suficiente para que Furiosa, o filme, ganhe uma propulsão dramática que vai além da simples exploração dos artifícios visuais do seu antecessor.

 

Miller se mantém fiel ao minimalismo dos diálogos e encontra na expressividade dos olhos Anya Taylor-Joy o motor necessário para que mesmo os descompassos de ritmo do filme pareçam mais uma aceleração climática do que um freio. Tal como Charlize, Anya tem um magnetismo que concilia ódio, brutalidade e inteligência, deixando escapar ternura e vulnerabilidade no meio do caos. E Miller, maestro desse caos, é igualmente capaz de tirar do grotesco e ensandecido uma beleza plástica que parece ter saído do sonho – ou pesadelo – febril de alguém.

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