Alceu Valença Alceu Valença 70 anos, sete capítulos: o criativo de talentos agalopados No quinto capítulo da série, os talentos de Alceu são destrinchados entre as áreas de atuação, do cinema à literatura, e a interseção deles se revela

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 30/06/2016 20:01 Atualizado em: 28/06/2016 11:27

Alceu Valença distribui a aptidão como poeta entre a música, o cinema e a literatura. Foto: Antonio Melcop/Divulgação
Alceu Valença distribui a aptidão como poeta entre a música, o cinema e a literatura. Foto: Antonio Melcop/Divulgação

Capítulo cinco de sete: o criativo


Os rompantes produtivos de Alceu Valença vagam agalopados entre os surtos, como ele os define na maior parte das vezes, e as obsessões. Os da primeira espécie rendem, em curto intervalo de tempo, produções extensas, algumas obras primas. Os da segunda são marcados pelo retorno incansável do artista aos embriões da própria arte, amadurecidos paulatinamente, revisitados dezenas de vezes. Anunciação (Alceu Valença), composta de forma despretensiosa, enquanto o músico solfejava sua flauta e percorria os arredores da casa em Olinda, nasceu de repente.

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Capítulo dois - o excêntrico bicho maluco beleza

Os textos do filme A luneta do tempo, dirigido por Alceu, por outro lado, foram submetidos a intervenções sucessivas do artista, obcecado pelas métricas e rimas perfeitas. “Ele compunha compulsivamente, assim como modificava, dia sim, outro também, os diálogos rimados no roteiro”, revela Julio Moura, assessor do músico, que retratou o processo no livro A luneta do tempo: um diário dos bastidores do filme A luneta do tempo de Alceu Valença (Chiado Editora, R$ 75), com fotos de Antonio Melcop.

No livro O Poeta da Madrugada, Alceu reúne poemas escritos entre 1960 e 2014, incluindo composições. Foto: Yanê Montenegro/Divulgação
No livro O Poeta da Madrugada, Alceu reúne poemas escritos entre 1960 e 2014, incluindo composições. Foto: Yanê Montenegro/Divulgação
A interseção entre os campos artísticos se revela em outra área de atuação do pernambucano, a literatura, e aponta na direção dos cantadores com quem cruzava nas feiras públicas de São Bento do Una. Em O poeta da madrugada (Chiado, R$ 28), lançado no ano passado, Alceu reúne versos concebidos entre 1960 e 2014, reflexo da aptidão mais antiga, gênese de todas as outras. “No começo, eu queria ser poeta, escrever livros. O cuidado com os versos de Acalanto para Isabela, minha primeira música gravada, já refletiam essa vontade”, lembra Alceu.

O músico é, antes de tudo, um trovador: escolhe as palavras ao conceder entrevistas, falar sobre a passagem do tempo, se referir a parceiros musicais. Faz rimas, marca o compasso espalmando as mãos sobre os joelhos. Música, cinema e literatura são encadeamento, manifestações da sua poesia. “Não é por acaso que sua obra musical reúne citações de Drummond, Quintana, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre, Rubem Braga, Cervantes”, observa Júlio Moura, testemunha íntima da produção artística multifacetada de Alceu. No Teatro de Santa Isabel, durante as gravações do DVD Vivo! Revivo!, recorda, o músico encarnou Castro Alves e citou O navio negreiro de diferentes pontos do palco. A poesia é seu norte. As raízes nordestinas também.

Nos bastidores de A luneta do tempo, as raízes pernambucanas e a veia poética se misturam. Foto: Antonio Melcop/Divulgação
Nos bastidores de A luneta do tempo, as raízes pernambucanas e a veia poética se misturam. Foto: Antonio Melcop/Divulgação
A luneta do tempo
, sua produção mais imponente fora do universo musical, desenvolvida em versos, explora o cangaço nordestino e resgata memórias da infância vivida entre o Agreste e o Sertão pernambucano, costurando as duas principais referências do artista. “É uma obra que nos faz ver os costumes sertanejos como cinematográficos, oníricos, carregada de lirismo e riqueza cultural, como tudo o que ele faz”, lembra Charles Theone, também cantor, que deu vida ao vilão Antero Tenente no longa, contracenando com Irandhir Santos (Lampião) e Hermila Guedes (Maria Bonita). “Roteiros de cinema, crônicas, canções… Vou fazendo tudo o que a imaginação e o tempo me permitirem”, diz Alceu. Os saraus promovidos pelo avô Orestes na fazenda em São Bento do Una e o rigor gramatical da avó, que não permitia aos filhos e netos uma única vírgula mal aplicada, se somam à convivência com Carlos Pena Filho - de quem Alceu foi vizinho no Recife -, no átrio de referências do multiartista agalopado.
    
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Documentários
Com produção e lançamento previstos para este ano, Alceu ganha documentário dirigido pelos conterrâneos Lírio Ferreira e Cláudio Assis. A dupla deve retratar a trajetória do artista, dando destaque ao rock psicodélico dos anos 1970, quando o músico ascendeu no cenário nacional. Além disso, o próprio Alceu articula produção audiovisual própria, dedicada às passagens por Lisboa, Paris, pela Suíça e, em Pernambuco, pelo Recife e por São Bento do Una. Duas séries de TV, cujo conteúdo ainda não foi revelado, também estão em fase de produção.

Disco inédito
Além de composições produzidas para A luneta do tempo e excluídas posteriormente do filme, Alceu tem faixa presenteada por Chico César e inéditas de seu arquivo pessoal. Embora ainda não esteja confirmado, um disco inédito está entre os planos ventilados pelo músico para os próximos anos.

Biografia
Assinada pelo assessor e escritor Julio Moura em parceria com a jornalista francesa Dominique Dreyfus, Alceu ganha biografia no ano que vem. O livro começa a ser escrito no próximo semestre, tomando as veias artísticas do músico como fios condutores de suas trajetórias pessoal e profissional. A biografia deve ter intervenções e depoimentos do artista, além de explorar acervo de composições, reportagens, escritos e fotografias do pernambucano.

No longa dirigido por ele, Alceu dá vida ao Velho Quiabo. Foto: Antonio Melcop/Divulgação
No longa dirigido por ele, Alceu dá vida ao Velho Quiabo. Foto: Antonio Melcop/Divulgação

>> DUAS PERGUNTAS: Alceu Valença, músico

Como funciona seu processo criativo? Há um ritual para compor, por exemplo?

É tudo muito espontâneo. Eu tenho verdadeiros surtos, fico surtado, disparo a escrever, por exemplo. Pego o violão, anoto algumas coisas, gravo outras. Uma vez, há muitos anos, saí tocando minha flauta pelas ruas de Olinda, quando os artistas ainda não eram celebridades, nos anos 1980. Comecei a soprar uma melodia que, para mim, nem era uma música. Vi as roupas penduradas no quintal de casa, ouvi o sino da catedral [da Sé], saí caminhando e tocando… E assim nasceu Anunciação. Era uma brincadeira, uma distração. Em outros casos, como na produção do roteiro do filme A luneta do tempo, eu voltava muitas vezes aos versos, ajustando as rimas, a métrica. Às vezes, fico obcecado.

A tecnologia ajuda no processo de produção? Como lida com essa ferramenta?

Minha relação com a tecnologia é boa, tranquila. Antes, eu tinha um gravador Sony, no qual eu registrava tudo, todas as ideias, melodias, composições, arranjos. Terminei dando esse gravador de presente. Às vezes eu gravo versos, melodias no meu smartphone. Mas ele jamais terá o romantismo do meu Sony. Sei usar a tecnologia a meu favor, sem parecer um doente. Fico pensando como é triste a vida dos cachorros, hoje em dia, que não têm smartphones e redes sociais para se conectar aos seus donos. Enquanto eles estão lá, pelos cantos, os donos estão curtindo as fotos dos cachorros dos vizinhos. Um dia desses, em minha casa, meu filho e minha esposa estavam no celular, navegando. Eu peguei o meu aparelho e mandei uma mensagem para ela, dizendo que precisávamos comprar um celular para Paco, que é nosso cachorro. (risos) Em relação a filmagens, por exemplo, prefiro o analógico ao digital. Sei que o digital capta os detalhes, as cores, a nitidez, é uma evolução. Sei disso. Mas é no analógico que eu viajo. Meu filme foi todo gravado em formato analógico. O analógico é que é onírico.

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