Diario de Pernambuco
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Opinião
O ovo da serpente

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 26/10/2019 03:00 Atualizado em: 26/10/2019 09:43

Comemorou-se no mês de julho deste ano de 2019 o centenário de Ingmar Bergman (1918-2007), diretor do filme O ovo da Serpente, produzido em 1977 e ambientado na Alemanha da República de Weimar (1925-1933), poucos anos antes da ascensão de Hitler. Passa-se em Berlim, novembro de 1923. Acompanhamos uma semana na vida de Abel Rosenberg, um trapezista judeu desempregado, logo após descobrir que seu irmão Max se suicidara. Em poucos dias seu mundo irá virar de cabeça para baixo. Bergman reconstruiu meticulosamente a Berlim da época, para tecer uma profunda reflexão sobre as origens do nazismo. No Brasil de hoje, nota-se um viés autoritário na sociedade, além de vivermos uma forte polarização política. O problema é que a corrupção não é a única das enfermidades brasileiras.

A expressão “o ovo da serpente” alastrou-se por todo o mundo e serve como parâmetro para tudo que, ao nascer, possa a vir a ser pernicioso ou poder causar futuros prejuízos à coletividade. A chocadeira do ovo da serpente funciona bem quando há: depressão econômica, alta taxa de desemprego, insegurança e a instabilidade sóciopolítica-moral e inflação. E essas distorções foram os principais motores que levaram o mundo, em pleno século 20, a testemunhar um dos seus mais lamentáveis períodos de domínio de políticos messiânicos, como ocorreu com o nazismo e o comunismo. No Brasil de hoje, nota-se um viés autoritário na sociedade, além de vivermos uma forte polarização política. O problema é que a corrupção não é a única das enfermidades brasileiras. Não adianta eleger um salvador da pátria para findar com a roubalheira e o banditismo como se esses fossem as causas exclusivas dos desníveis sociais.… essa história de igualdade é uma grande mentira usada pela esquerda para enganar os mais ingênuos que ainda acreditam em Papai Noel. Acorda, Brasil. É nos momentos de crise que podemos melhorar nossas vidas e as dos nossos filhos. No meu caso, as dos meus netos…

Para a filósofa Hanna Arendt, o poder do regime totalitário está centrado na propaganda: “ela visa doutrinar, pois a força da propaganda totalitária reside na sua capacidade de isolar as massas do mundo real com vistas a oferecê-las um mundo completamente imaginário e distante da realidade”. (ARENDT: 1989, Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 402).

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele faz de conta que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, dos sapatos, dos remédios, da Justiça, todos depende de decisões políticas. Ao mesmo tempo, o analfabeto político é tão alienado que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.” Bertolt Brecht (1898-1956). E essa história de igualdade é uma grande mentira usada pela esquerda para enganar os mais ingênuos que ainda acreditam em Papai Noel. Acorda, Brasil. É nos momentos de crise que podemos melhorar nossas vidas e as dos nossos filhos. No meu caso, as dos meus netos. É bom recordar: no inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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