O fim das fronteiras geopolíticas
Em 201 anos, a cobertura nacional e internacional passou da notícia que levava dias para atravessar oceanos ao fluxo permanente de informações, em uma transformação que também mudou o papel do jornalismo
O Diario de Pernambuco acompanha o que acontece para além das divisas do estado e ajuda o leitor a entender por que acontecimentos ocorridos em Brasília, Washington, Paris ou em qualquer outro ponto do planeta podem ter relação com a vida de quem está no Recife, em Saloá, Itacuruba, Belo Jardim, Carnaubeira da Penha, Araçoiaba ou Exu. No Diario, essa cobertura faz parte de uma história que começou há exatos 201 anos, muito antes da internet, da televisão, do rádio e até mesmo do telégrafo elétrico, quando saber o que acontecia no mundo dependia de informações que levavam dias para atravessar os oceanos em navios.
Ao longo de sua trajetória, o jornal em circulação mais antigo na América Latina acompanhou guerras, revoluções, crises políticas, mudanças econômicas, catástrofes, descobertas científicas e transformações sociais que alteraram o rumo de povos e países inteiros. A maneira de contar essas histórias, entretanto, mudou profundamente de 1825 até aqui. Dois momentos históricos, das Guerras mundiais, ilustram um pouco essa trajetória.
Durante a Primeira Guerra Mundial, as notícias do conflito chegavam ao Recife por cabos submarinos e eram publicadas nas páginas do Diario, que passou a acompanhar o conflito com informações de agências de notícias europeias vindas pelo telégrafo.
Na Segunda Guerra Mundial, por sua vez, pouco mais de duas décadas depois, o Diario publicou edições extras, textos com mapas e diagramas e um suplemento de guerra com análises sobre o conflito, tudo com informações recebidas agora pelas ondas dos rádios.
Desde a sua fundação, a cobertura jornalística nacional e internacional do Diario acompanhou a evolução dos meios de comunicação. O telégrafo elétrico, em 1837, reduziu o tempo de circulação das notícias internacionais e, em seguida, vieram o rádio, em 1906, a televisão, em 1907, e as transmissões ao vivo de TV, iniciadas em 1950, dando ainda mais velocidade às notícias.
A internet, que começou a ser difundida no Brasil na década de 1990, mudou novamente esse ritmo ao transformar o fluxo de informação em algo permanente, imediato e interativo. A notícia deixou de esperar o próximo jornal, o programa de rádio ou o fim da novela para aparecer no telejornal da noite.
A mudança da cobertura, contudo, foi muito além da velocidade. Durante boa parte da história do jornalismo, o leitor dependia dos veículos para saber o que havia acontecido. Hoje, por sua vez, o público pode receber imagens, vídeos e relatos diretamente de pessoas que estão no local da notícia.
A redação, com isso, passou a disputar a atenção das pessoas em meio a uma quantidade praticamente ilimitada de conteúdos. Ao mesmo tempo, ficou ainda mais importante saber o que merece ser publicado, conferir a informação e oferecer ao leitor elementos para compreendê-la.
É justamente nesse cenário que trabalha a editoria de Radar, reunindo o noticiário nacional e internacional, com desdobramentos que podem interferir na vida dos pernambucanos. Uma eleição em outro país pode alterar relações diplomáticas, uma decisão econômica na Europa ou na Ásia pode repercutir nos mercados brasileiros e uma guerra pode ainda afetar os preços dos combustíveis e dos alimentos.
Para o professor universitário, economista e advogado Sandro Prado, a globalização criou uma relação de dependência cada vez maior entre os países. "Conflitos bélicos, uma decisão de política monetária ou uma crise energética em outra região pode afetar preços, investimentos, empregos e inflação no Brasil. A globalização criou uma interdependência entre os países", afirma.
Chegar primeiro ao leitor era uma vantagem decisiva, mas hoje, uma informação publicada em um país pode ser reproduzida em segundos por veículos, redes sociais e plataformas digitais no mundo inteiro. O maior desafio, assim, passou a ser distinguir aquilo que é verdadeiro, identificar qual é o contexto e quais consequências pode produzir.
"A velocidade ampliou nosso acesso aos acontecimentos, mas trouxe excesso de conteúdo, superficialidade e dificuldade de distinguir fatos de opiniões e desinformação", afirma Sandro. Nesse ambiente, o próprio conceito de "furo" também mudou. Quando uma informação pode ser compartilhada por milhares de pessoas em poucos segundos, chegar primeiro deixou de ser suficiente. O valor de uma reportagem pode estar justamente no trabalho que leva mais tempo, como descobrir o que ainda não foi revelado, confrontar versões, encontrar documentos e explicar as consequências de uma decisão.
"O furo continua tendo valor, especialmente quando representa uma investigação original e revela algo de interesse público. Mas a velocidade deixou de ser um diferencial porque milhares de pessoas recebem praticamente a mesma informação ao mesmo tempo", diz Prado.
A inteligência artificial acrescentou uma nova camada a esse processo. As IAs já fazem parte da realidade das redações e podem ajudar a lidar com um volume de dados que seria impossível processar manualmente na mesma velocidade. Ainda assim, a tecnologia não responde sozinha a questões como a credibilidade de uma fonte, os contextos de uma declaração ou o interesse público de determinada informação.
Para Prado, essas decisões continuam dependendo da apuração e da responsabilidade editorial. "O diferencial do jornalismo continuará sendo a capacidade humana de investigar, formular perguntas relevantes, compreender contextos sociais e políticos, confrontar interesses e responsabilizar quem exerce o poder e ter, sobretudo, o compromisso com a verdade".
- Leitores levam para o exterior edição histórica do Diario com vitória de Lula na capa
- Diario de Pernambuco faz nova venda de edição especial com Lula na próxima quarta-feira (4)
- Diario faz última reimpressão do exemplar com a reeleição de Lula nesta quinta (29); veja horário
- Lote extra da edição histórica do Diario esgota em poucas horas nesta quarta (28)
- Edição histórica do Diario com reeleição de Lula na capa tem fila de espera para compra