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ARTES PLÁSTICAS

Exposição no Recife reúne produção inédita que atravessa Sertão e periferia

Mostra abre nesta quinta-feira (15), na Arte Plural Galeria, no Recife, e segue até 27 de novembro investigando sobre a convivência entre força e fragilidade

Diario de Pernambuco

Publicado: 14/10/2026 às 17:13

Mozart constrói uma linguagem que tensiona as fronteiras entre pintura, escultura, e instalação/Foto: Julia Thompson

Mozart constrói uma linguagem que tensiona as fronteiras entre pintura, escultura, e instalação (Foto: Julia Thompson)

Bainhas de peixeiras, penas, chifres, peles, sementes e texturas reforçam sobre a convivência entre força e fragilidade em “Delicado é o Espinho”, exposição individual do artista pernambucano Mozart Santos, que abre nesta quinta (15), na Galeria Arte Plural.

Com curadoria da jornalista e pesquisadora Fabiana Moraes, a mostra que investiga como se constroem as imagens do Brasil e quem tem o poder de produzi-las, fica em cartaz até 27 de novembro com uma coleção de peças inéditas que compõem uma paisagem áspera e terna.

Ao combinar materiais orgânicos, objetos associados à cultura popular e elementos que carregam marcas de uso, memória e pertencimento, Mozart constrói uma linguagem que tensiona as fronteiras entre pintura, escultura, e instalação.

Em sua pesquisa, a matéria não funciona apenas como suporte ou recurso formal, mas como portadora de códigos culturais e modos de existência, quando o artista desloca esses elementos de seus contextos habituais e os reorganiza em composições que desafiam hierarquias entre referências populares e eruditas, tradição e contemporaneidade.

“Mais do que representar o sertão, a mostra recusa o olhar pronto, construído pela televisão e pela indústria cultural, e devolve a esse território, e a quem dele veio (remixado, reorganizado, reelaborado) o direito à complexidade, à delicadeza e ao volume. É uma paisagem que não é só sertaneja, é brasileira, periférica, contemporânea” aponta Fabiana Moraes.

Sem reforçar o sertão do clichê - o do cabra macho, do sol a pino, da dureza -, o artista opera pelo avesso, atento ao delicado que também habita esse território. As bainhas de couro ganham nomes como Lambedeiras e Igbin, recebendo, às vezes, a proteção de penas e metais.

“O título anuncia a chave da exposição. Os espinhos se revelam menos arma do que defesa, como os pelos de uma taturana ou a casca grossa de seres que se unem para se proteger", reforça a curadora.

A escolha dos materiais é parte central dessa investigação, com uma materialidade que carrega uma dimensão sensorial e cultural. É dessa lógica que nasce Colônia, obra em que buchas vegetais e um aparato sonoro formam um coletivo vivo de criaturas que se juntam porque são frágeis.

“O sertão não é uma imagem parada no tempo, nem um território definido pela falta. Ele está na cidade, nos corpos, nos objetos e nas formas de imaginar o mundo. Meu trabalho parte dessas memórias, mas não para reproduzi-las como herança intocável. Quero deslocá-las, criar outras relações entre materiais, símbolos e histórias que quase sempre foram vistas de maneira isolada ou reduzidas a estereótipos. Existe uma potência estética e política nessas referências, e me interessa justamente o que acontece quando elas deixam de ocupar um lugar periférico no imaginário e passam a produzir outras leituras sobre o Brasil,” explica Mozart Santos.

Também atravessa a mostra, uma forte presença de religiosidades de matriz africana, indígena e da cultura popular. Madeira e metal, elementos que evocam o despacho, as referências à Jurema e ao Catimbó, a memória dos mestres do Maracatu e do Cavalo Marinho que tocam juntos segurando a guiada. Tudo convive com a devoção católica popular, numa espiritualidade mestiça que é a do próprio Nordeste. Não por acaso, o artista aproxima sua pesquisa de festejos como a coroação do Rei do Congo, que sobrevive no sertão como herança negra e diaspórica.

Morador do Ibura, Região Metropolitana do Recife, a série surgiu em 2024, onde o artista reencontrou em suas andanças por Floresta (PE), os objetos de sua própria infância: a bucha vegetal, o badoque, a pipa e as bodegas de balcão.

Em Delicado é o Espinho, o sertão não aparece como paisagem distante, mas como aquilo que migrou com os êxodos rurais e se enraizou nas periferias das grandes cidades, do Ibura a São Paulo, para onde o próprio artista se mudou. O "animal sertanejo" que dá nome a parte das obras é também o nordestino que desembarca no Sudeste e é olhado como uma espécie estranha. É o rapaz que volta para a própria terra e tenta se relocalizar.

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