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Em última entrevista ao Diario, Netinho comemorou volta aos palcos após uso de anabolizantes e AVCs

Falecido nesta terça-feira aos 60 anos, o cantor baiano fez três shows na capital, em 2015, ocasião em que falou sobre dificuldades com a depressão, doença e uso de anabolizantes

André Guerra

Publicado: 13/10/2026 às 13:19

Netinho em 1997/Foto: Heitor Cunha/Acervo DP

Netinho em 1997 (Foto: Heitor Cunha/Acervo DP )

Em agosto de 2015, Netinho veio ao Recife para três apresentações na antiga casa de shows Manhattan Café Theatro, em Boa Viagem. Na ocasião, o artista baiano, que faleceu nesta terça-feira (13), conversou com o Diario sobre as complicações na sua carreira, o uso de anabolizantes, a grave depressão e os três AVCs que sofreu.

“Sou vaidoso, como todo ser humano. Qual ser humano não é vaidoso? Quem diz que não é mente. Sou vaidoso sim, e me cuido de todas as formas”, disse o cantor na entrevista, à época.

No show intimista "DNA Netinho", ele cantou cinco músicas, por recomendação médica. “Estou treinando minhas cordas vocais, aquecendo-as várias vezes por dia com fonoaudiólogo, para que rapidamente elas possam voltar ao estado que eram, antes de eu adoecer”, explicou.

Um dos maiores nomes do axé music, Ernesto de Souza Andrade Júnior, conhecido nacionalmente como Netinho, morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, em um hospital de Salvador, onde estava internado devido a complicações de um Hodgkin (tipo de câncer no sistema linfático).

Confira abaixo a entrevista completa concedida por ele em 2015:

Como está a expectativa para o show?

"A expectativa é a melhor possível. Estou muito feliz, tudo pronto, terminando os últimos ensaios e ajustes aqui em Salvador. Viajo para o Recife na quarta-feira, onde terei jantares, reuniões e compromissos de imprensa e mídia. Os shows serão na sexta, no sábado e domingo. Vão ser três noites maravilhosas, em uma cidade que sempre me recebeu com muito carinho, onde fiz muito amigos. Sempre fui muito feliz quando estive aí e desta vez não será diferente".

Como será a noite? Quais músicas você escolheu?

"As três noites, assim como meus shows todos na turnê "DNA Netinho", serão apenas com músicas que eu já gravei. Entre elas as mais animadas, as mais elétricas e também músicas românticas, as baladas que eu gravei. Vai ser um show como todos os que eu já fiz, reunindo um pouco do que eu já fiz nesses anos todos. São muitos hits, muitas músicas de rádio, eu tive uma dificuldade grande para escolher esse repertório. Tenho certeza de que terei de tirar uma, trocar por outra, porque, mesmo músicas que não tocaram em rádio viraram trilha sonora de muitos fãs meus. Adoro satisfazer as pessoas".

Como está a sua voz? O que você pode e não pode fazer?

"Minha voz ainda está em tratamento. Como você pode ouvir, eu já pronuncio todas as letras, todas as sílabas, falo as palavras todas, mas ainda sigo em tratamento. Minhas cordas hoje se encontram como cordas vocais de um recém-nascido, porque eu fiquei praticamente dois anos falando muito pouco. Como corda vocal é um músculo como outro qualquer do corpo, ele precisa de treinamento. É o que estou fazendo hoje: treinando minhas cordas vocais, aquecendo-as várias vezes por dia com fonoaudiólogo, para que rapidamente elas possam voltar ao estado que eram, antes de eu adoecer, há dois anos. Malhadas, como músculos. Inicialmente, eu cantarei cinco das 30 músicas. Isso tudo sugerido por meus médicos, em São Paulo. Por isso estou levando outro cantor baiano comigo para todos esses shows. Ele canta o restante. No decorrer do show, eu vou aumentando para seis, sete, oito, até conseguir cantar as 30 músicas. A partir desse momento, o cantor sai do projeto e eu sigo fazendo meu novo show pelo Brasil afora".

Quem é o cantor que vai acompanhá-lo? Quantas músicas você vai cantar?

"O nome do cantor ainda é um segredo. Irá um cantor já para esses três shows no Recife e ele ainda é um teste, um experimento. Só saberei se ele realmente vai fazer todos os shows pelo Brasil afora quando ele definitivamente se encaixar no projeto. Então eu estaria sendo leviano se falasse agora, neste momento, o nome de qualquer cantor e ele adiante não estar no projeto, coisa que poderia prejudicá-lo na carreira. Então eu prefiro manter em segredo. Quem verá o cantor serão apenas as pessoas que irão aos primeiros shows. Quando ele ou outro cantor se encaixar definitivamente, eu mesmo anunciarei na mídia e redes sociais".

Como foram os ensaios para o retorno? Quando começaram? Qual a periodicidade?

Os ensaios para o retorno começaram há quatro semanas aqui em Salvador, para os três primeiros shows no Recife, praticamente três vezes por semana. Nas duas últimas semanas, incrementamos para quatro. Na última semana, acontece um ensaio por dia, de banda e bailarinos. Deu para tudo, está tudo ficando perfeito. Hoje, irei assistir apenas aos dois últimos ensaios em Salvador, apenas para confirmar tudo, que já ficou tudo perfeito.

Você está preparando um disco, chamado Feito em casa. Será um projeto de inéditas, sucessos?

Este projeto que eu estou preparando há algum tempo já e darei continuidade assim que fizer esses três shows primeiros no Recife se chama Feito em casa e é composto por sobras de gravações de discos durante esses anos todos. Chegando em casa neste ano, após a segunda internação de seis meses no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, encontrei em minha casa, na praia de Guarajuba, na Bahia, muitas sobras, muitas músicas lindas que eu gravei e não entraram nos discos. Então eu tive a ideia de pegar esse material, entrar no estúdio, acrescentar alguns elementos e instrumentos que não estão nessas gravações, remasterizá-los todos e colocá-los em um disco. Será um álbum apenas de músicas inéditas que eu já gravei no passado e não entraram em discos.

Quando você sentiu que estava pronto para voltar aos palcos? E quando pretende fazer um show completo?

Na verdade, ainda não estou pronto para fazer um show completo. Por isso, no "DNA Netinho", eu estou levando um cantor para me ajudar. Hoje, os médicos, não pela minha voz, mas pelo desgaste físico, não me aconselham cantar mais de cinco músicas. Porém, como eu já estou andando, podendo viajar, fazendo do meu dia a dia aos pouquinhos já, poderei ir logo para a estrada com um show, mesmo não conseguindo cantar ainda na sua totalidade. Tudo que tenho em mim de artista, músico, cantor, está me levando ao reencontro com o meu público, as pessoas, a ouvir minha música tocando e alegrando todo mundo, fazendo festa e alegria, como fiz a vida toda.

Comandar um trio no próximo carnaval está nos seus planos?

Comandar um trio, de fato, para o carnaval de 2016 ainda não está nos meus planos, porque, se eu fizer algum carnaval - que não sei ainda se farei -, será parte sentado e parte em pé, não podendo dançar ainda, pois ainda não tenho meu equilíbrio totalmente. Terei logo adiante, é uma questão de tempo. Se eu fizer um carnaval em 2016 será não na sua totalidade. Cantarei sentado, um show mais curto, menor. Imagino voltar de volta ao carnaval em 2017 ou, ao longo de 2016, em alguma micareta.

Sua música está muito ligada à felicidade, festa. Você se considera uma pessoa feliz?

Eu me considero uma pessoa muito feliz. Já me considerava desde 2012, quando dei uma parada na minha carreira para viver um pouco a minha vida. Já era pai naquela época. E agora mais ainda porque, depois desses dois anos de hospital e enfermidade, aprendi muita coisa. Uma delas foi que aprender é uma tarefa ilimitada, até o fim da vida. Como eu sou um aprendiz nato, venho aprendendo com esses dois últimos anos. E me sinto ainda mais feliz e realizado. Tenho muita sorte, porque, desde o início da nossa carreira, quando ainda éramos Banda Beijinho, todas as músicas que eu cantava e gravei transbordam alegria, têm o desejo de levar felicidade, descontração para as pessoas.

Você decidiu tornar público o uso de anabolizantes após a doença, enquanto muitas pessoas não teriam coragem de fazê-lo. Por quê? Qual a importância de discutir o tema?

Eu preciso colocar aqui que a questão dos anabolizantes eu tornei pública antes mesmo de sair do hospital. Quando senti uma dor na perna, em 2013, no verão de Salvador, e fui para o hospital, já levei, junto com meus exames, checkups de anos todos passados, levei também as receitas de anabolizantes que o médico de São Paulo me prescreveu, em 2010, e os recibos de compra, pois ele mesmo me vendeu as substâncias. Eu não mantinha segredo para as pessoas com que eu convivia. Quando eu saí do hospital, definitivamente, agora em janeiro, eu resolvi colocar essa questão dos anabolizantes mais ainda do que em 2014, porque, apesar de eu ter feito uso acompanhado por um médico, considerado o melhor nutrólogo do Brasil naquele ano, entendo hoje o malefício que o uso indiscriminado dos anabolizantes pode causar. Afirmo hoje a separação. Muita gente faz essa ligação de musculação com anabolizantes, sobretudo no mercado negro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Hoje, eu faço musculação, porque amo esse esporte e sei o benefício que pode dar ao corpo. Hoje, procuro deixar muito claro que anabolizantes, no uso indiscriminado, não levam a nada, apenas prejudicam.

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