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MÚSICA

Fernanda Torres volta ao Recife com peça que reflete sobre a sexualidade brasileira: "Não há pecado no sexo

"A Casa dos Budas Ditosos" retorna ao Recife após quase 20 anos, com Fernanda Torres novamente sozinha em cena para falar sobre sexo, liberdade e prazer

Allan Lopes

Publicado: 31/08/2026 às 06:00

Fernanda Torres interpreta uma baiana de 68 anos que narra suas experiências e descobertas sexuais/Foto: Luciana Prezia

Fernanda Torres interpreta uma baiana de 68 anos que narra suas experiências e descobertas sexuais (Foto: Luciana Prezia)

O teatro nunca foi lugar de caretice para Fernanda Torres. Não foi em 2003, quando ela estreou “A Casa dos Budas Ditosos”, nem é agora, mais de duas décadas depois, em uma nova temporada do espetáculo, que adapta o livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro e mantém a direção original de Domingos Oliveira, falecido em 2019.

Sozinha em cena, a atriz interpreta uma baiana de 68 anos que expõe, sem pudores, as minúcias de sua apimentada vida sexual. A comédia chega ao Teatro Guararapes, no Grande Recife, nesta quarta-feira (2) e quinta-feira (3), sempre às 21h, com os últimos ingressos disponíveis no site Uhuu! e na bilheteria do Teatro RioMar Recife, a partir de R$ 125.

A apresentação encerra um jejum de quase 20 anos desde a última passagem da montagem na cidade. Em entrevista exclusiva ao Diario, Fernandinha não esconde o tamanho da saudade. “Estou feliz de botar o pé no Recife de novo. É o Brasil em sua potência máxima. Sempre sinto que existe uma revolução acontecendo no Recife e que eu, lá no Rio, estou ficando de fora”, revela.

“Do Suassuna ao Chico Science e Kleber Mendonça Filho, vocês são sempre abusados, inteligentes e produzem algo que acaba norteando a cultura brasileira”, exalta a atriz. Essa admiração mútua acontece há mais de três décadas, quando ela participou de algumas cenas de “Kuarup” (1989) rodadas no Recife e em Olinda. O longa, dirigido por Ruy Guerra, disputou a Palma de Ouro em Cannes.

Fernanda Torres tinha 37 anos quando encarnou a protagonista de “A Casa dos Budas Ditosos” pela primeira vez. A carioca, hoje aos 60, conta como estar mais próxima da idade da personagem trouxe uma nova perspectiva para o papel. “É como tocar uma partitura de música cada vez mais afinada. Agora, eu domino com calma cada vírgula. Não tenho mais a ansiedade de agradar, tenho a segurança da força que Ubaldo criou. Acho que, cada vez mais, eu concordo com ela”, relata.

O tempo, de fato, jogou a seu favor. Nesse período, vieram sucessos como “Saneamento Básico: O Filme” (2007), “Os Normais 2” (2009) e “Tapas & Beijos” (2011), entre tantos outros trabalhos, culminando na indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Ainda Estou Aqui” (2024).

Mesmo já consagrada e querida pelo público brasileiro, ela segue incansável, sem sinais de desacelerar. “Acho que canso de ficar em um lugar só”, resume. O teatro, que a acolheu logo aos 13 anos com a peça “Um Tango Argentino” (1978), se tornou o pilar indissociável desse fenômeno cultural chamado Fernanda Torres.

“É uma arte irreplicável. Nesse mundo de memes, IAs, aplicativos e sites, o teatro é o lugar onde você vai ver essa coisa impressionante chamada ser humano: um bicho esquisito que fala, pensa, anda, ri e chora. Essa experiência ao vivo, irreproduzível, é sempre muito especial. Teatro, quando acerta, é mesmo inesquecível”, exalta.

Mas a relação com “A Casa dos Budas Ditosos” é diferente, até prazerosa, alimentada por uma espécie de tesão pela arte que une ela, João Ubaldo Ribeiro e Domingos Oliveira. “A peça é uma mescla de nós três, como uma orgia sagrada. Voltar ao palco é como estar com eles de novo”, descreve.

Por meio da baiana sexagenária, a peça reflete sobre a sexualidade brasileira, do Brasil colonial, recém-saído da escravidão, à revolução dos costumes. A história desemboca nos dias de hoje, quando a personagem estabelece um acordo pragmático, quase contratual, com um jovem a quem trata simultaneamente como filho e amante.

Segundo Fernanda Torres, não se trata de chocar ou se exibir, mas de mostrar que o ato sexual também pode ser divino. “Ela junta esses dois lados, o libertino e o conservador, e fala sobre a sacralidade do sexo”, explica. Dessa forma, a peça escancara um discurso cada vez mais desconfortável de expor.

Em 2018, a própria atriz cancelou apresentações da peça por “temer os humores das brigadas conservadoras”. “Não há pecado no sexo. Também é um ato de bondade. A baiana é uma personagem liberta, sem radicalismos, que vem a público, com imensa gentileza, pedir que a gente imagine o que seria, de fato, ser livre sexualmente”, completa Fernanda.

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