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CENA CULTURAL

Superando desafios de segurança, novos espaços culturais dão nova vida ao Centro do Recife

Bares, casas de shows e espaços culturais buscam devolver movimento ao Centro do Recife, mas ainda enfrentam desafios como segurança e falta de incentivos

Allan Lopes

Publicado: 28/08/2026 às 06:00

Conchittas, Brilho Cultural e Casa Bacurau investem na ocupação cultural e na movimentação do Centro do Recife/Fotos: Divulgação e Bruno Dantas

Conchittas, Brilho Cultural e Casa Bacurau investem na ocupação cultural e na movimentação do Centro do Recife (Fotos: Divulgação e Bruno Dantas)

“Eu amo o Centro do Recife”, narra Kleber Mendonça Filho no documentário “Retratos Fantasmas”. A declaração do cineasta traduz o sentimento de muitos recifenses que mantêm vivo o orgulho pelo coração histórico da cidade. Essa relação, porém, foi se enfraquecendo diante das dificuldades de frequentar uma região que há anos enfrenta problemas de segurança, habitação e comércio.

Na tentativa de reverter esse esvaziamento, espaços culturais despontam como agentes de uma retomada que busca devolver ao público um Centro mais vivo. O Diario conversou com empreendedores culturais que tentam reconquistar a confiança do público enquanto a região tenta se reerguer.

Entre os estabelecimentos que vêm dando novos sinais de vitalidade à área central do Recife estão o Provinha, Conchittas e Casa Lontra (Boa Vista); Brilho Cultural (Santo Antônio); além do Central das Estrelas e Casa Bacurau (Santo Amaro). Este último espaço funcionava anteriormente no bairro da Encruzilhada e, segundo o sócio-fundador Victor Alves, a mudança para o novo endereço, em 2021, não deixou arrependimentos.

“Hoje, estamos em uma posição de resistência, ajudando a manter o Centro vivo e ativo, com gente fazendo cultura, trabalhando e ocupando esse espaço. Para mim, é motivo de muito orgulho fazer parte desse movimento”, celebra. A agitação do espaço é comandada por artistas locais, DJs da cena recifense e outras atrações culturais de terça a domingo.

Inaugurado em novembro de 2025, o Brilho Cultural recuperou o galpão do Edifício Douro, na Rua Ulhôa Cintra, que havia sido transformado em depósito. O espaço recebeu intervenções de arquitetura, instalações elétricas, tratamento acústico, banheiros, acessibilidade e infraestrutura para receber grandes eventos. A programação, que não tem dias fixos, inclui shows e festas temáticas.

“Cada evento realizado movimenta não apenas o Brilho, mas também o comércio do entorno, gera empregos diretos e indiretos e incentiva que as pessoas voltem a ocupar uma região que historicamente sempre foi um dos maiores polos culturais da cidade”, destaca o proprietário Rafael Infa.

Também seguindo em direção ao Centro, o Conchittas Bar fez as malas, no início deste ano, para a Rua da Imperatriz Tereza Cristina, mais conhecida simplesmente como Rua da Imperatriz, após funcionar por mais de 15 anos na Rua Manoel Borba. “Fui pioneiro na época e, depois que cheguei, praticamente nove bares se instalaram na região”, relembra o proprietário Bruno Barros.

“Estou, novamente, entre os primeiros a apostar em um bar noturno, desta vez na Rua da Imperatriz. A expectativa é que outros bares e empresários também venham para cá e ajudem a movimentar a rua”, comenta. Aberta de quinta a domingo, a casa passou recentemente a apostar no pagode e no samba, que vem ampliando o movimento nas tardes do fim de semana.

Uma novidade que pode contribuir para atrair o público para o endereço é a retomada da circulação de carros na via, restrita para pedestres há quase 50 anos e com reabertura prevista para setembro. A iniciativa da Prefeitura do Recife atende a uma antiga reivindicação dos proprietários de imóveis da área em meio à sensação de vulnerabilidade.

“Eu já sabia que, para vir para cá, precisaria investir em segurança. Como já estou estruturado, tenho uma clientela fidelizada e experiência nesse tipo de trabalho, isso me dá segurança para investir”, afirma o responsável pelo Conchittas.

Diante dos frequentes relatos de furtos no Centro, a falta de segurança é um dos desafios. “Por termos um público grande e diverso, essa é uma preocupação constante”, diz Victor Alves. Nesse cenário, a Casa Bacurau também precisa se reinventar para manter o negócio atraente e relevante, mesmo com nenhum incentivo do poder público.

“Querendo ou não, hoje é muito difícil fazer cultura, principalmente no Recife. Vamos falar abertamente: se fosse em São Paulo, com mais iniciativa privada e outras condições, talvez tivéssemos mais facilidade. Aqui, realmente, é matar um leão por dia”, desabafa o empresário.

Para Rafael, do Brilho Cultural, a recuperação da região passa também por uma mudança no debate público. Ele avalia que os problemas recebem mais destaque do que as experiências positivas que surgem no Centro. “Uma divulgação mais ampla desse movimento de revitalização certamente contribuiria para que mais pessoas voltassem a enxergar o Centro como um lugar de convivência, cultura e lazer”, argumenta.

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