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NOMEAÇÃO

Pernambuco amplia lista de Patrimônios Vivos com dez novos mestres e grupos

Dez novos Patrimônios Vivos de Pernambuco foram escolhidos entre 205 candidaturas, maior número de inscrições já registrado no concurso

Allan Lopes

Publicado: 06/08/2026 às 18:28

Os dez novos Patrimônios Vivos de Pernambuco foram anunciados nesta quinta-feira (6)/Foto: Silla Cadengue/Fundarpe

Os dez novos Patrimônios Vivos de Pernambuco foram anunciados nesta quinta-feira (6) (Foto: Silla Cadengue/Fundarpe)

Dez novos nomes e grupos passam a integrar, a partir deste ano, a lista de Patrimônios Vivos de Pernambuco. Os escolhidos foram anunciados nesta quinta-feira (6) pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC).

São eles: Teco Agamenon (Triunfo), Terreiro de Mãe Amara (Recife), Mestre João Paulo (Nazaré da Mata), Barracão Mãe Nadja (Recife), Gres Preto Velho (Olinda), Maracatu Crizeiro do Forte (Recife), Mestra Di (Olinda), Família Vitalino (Caruaru), Mestre Zé Negão (Camaragibe) e Juliana Pankararu (Jatobá).

Com as novas nomeações, Pernambuco chega a 125 Patrimônios Vivos, entre mestres, mestras e grupos responsáveis pela preservação e transmissão de saberes ligados às tradições populares do Estado.

Os eleitos recebem o título oficialmente em 17 de agosto, durante a abertura da 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural de Pernambuco, data que também marca o Dia do Patrimônio Cultural.

A votação foi realizada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC) - Foto: Silla Cadengue/Fundarpe
A votação foi realizada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC) (crédito: Foto: Silla Cadengue/Fundarpe)

“Este processo envolveu a escuta dos candidatos e da comissão de pareceristas. Um exame detalhado de todas as candidaturas neste que é o concurso mais importante para a premiação da cultura popular de Pernambuco”, afirma Antiógenes Viana, presidente do CEPPC.

A seleção deste ano partiu de um número recorde de inscrições: foram 205 candidaturas, para um limite de até dez novos Patrimônios Vivos. Criado em 2002, o título é concedido por meio de edital público e garante uma bolsa vitalícia de R$ 2.479,41 para indivíduos e R$ 4.958,85 para grupos. Como contrapartida, os contemplados participam de ações de transmissão de seus conhecimentos promovidas pelo Governo de Pernambuco.

A edição de 2026 também trouxe mudanças no processo de inscrição. Pela primeira vez, os candidatos puderam apresentar suas trajetórias em formato semi-oral, por meio de vídeo, sem a necessidade de produzir um texto escrito. A defesa das candidaturas também pôde ser feita presencialmente ou on-line.

O número de contemplados por ano foi ampliado gradualmente diante do crescimento das inscrições. Inicialmente, eram três títulos anuais. Em 2016, o limite passou para seis e, em 2021, chegou aos atuais dez.

A escolha é feita pelo CEPPC, que reúne representantes do Governo, integrantes da sociedade civil e pessoas de notório saber. No processo, o conselho analisa o edital, acompanha as candidaturas, promove audiências públicas e escuta a defesa dos concorrentes antes da votação final.

Conheça os 10 novos Patrimônios Vivos de Pernambuco

TECO DE AGAMENON - Início e Tradição: Agamenon Gonçalves Lima Filho, o Teco de Agamenon, é brincante e artesão da tradição do Careta em Triunfo-PE desde 1965 (quando tinha 8 anos). Aprendeu na prática a confeccionar máscaras, chapéus, relhos e vestimentas com os mais velhos.

Ensino e Oficinas: Dedica sua vida a repassar esse saber cultural para crianças e jovens em seu quintal, escolas e projetos. Expandiu sua atuação para outros municípios e estados (como no Ceará, em parceria com o SESC), além de expor e comercializar suas peças em feiras de artesanato local.

FAMÍLIA VITALINO - Linhagem e Tradição: O grupo é formado por descendentes diretos de Mestre Vitalino, com foco na linhagem de seu filho, Severino Vitalino. Há mais de 60 anos, atuam no Alto do Moura (Caruaru-PE) e mantêm há 54 anos suas atividades na mesma residência e oficina histórica.

Domínio do Saber-Fazer ("Escola Vitalina"): Atualmente na quarta e quinta gerações, a família preserva todo o ciclo produtivo da arte figurativa em argila (extração, preparo do barro, modelagem, paleta de cores tradicional e queima), retratando o cotidiano e a cultura do povo agrestino.

MESTRE ZÉ NEGÃO - Origem e Formação: Nascido José Manoel dos Santos em 1950, de ascendência negra e indígena, trabalhou desde a infância no corte de cana. Iniciou sua vivência na cultura popular aos 13 anos, passando por folguedos, escolas de samba, Cavalo Marinho, ciranda e coco de roda.Guardião do Coco de Senzala: Como Mestre, preserva o Coco de Senzala, manifestação afro-indígena com ritmo e cadência ancestral dos engenhos. Cria composições autorais inspiradas em sonhos e registradas por sua companheira, Mestra Fátima, abordando a luta contra o racismo e o trabalho na terra.

Ações Comunitárias e o Projeto LAIA: Radicado em Camaragibe-PE desde 1978, fundou o Projeto Negão (1994) e o Laboratório de Intervenções Artísticas – Laia (2003). Atuou ativamente no desenvolvimento do Loteamento João Paulo II, articulando desde mutirões para moradia e saúde até a criação do espaço cultural Canto das Memórias.

JULIANA PANKARARU - Identidade e Origem: Indicada pelo Grupo Curumim Gestação e Parto, Juliana Maria da Silva (Juliana Pankararu) é uma mulher indígena de 52 anos, residente no Território Indígena Aldeia Saco dos Barros, em Jatobá (Sertão de Pernambuco).

Saberes Ancestrais e Medicina Tradicional Indígena: Atua como mendeira (benzedeira), raizeira e parteira tradicional. Aprendeu por meio da oralidade com sua mãe, avó e tias, utilizando plantas do território indígena para chás, banhos e garrafadas.

MESTRA DI - Origem e Identidade: Nascida em Olinda (PE) em 1973, Adriana Luz do Nascimento (Mestra Di) é uma mulher afroindígena e periférica, mãe de duas filhas e com uma trajetória marcada pelo frevo (onde foi aluna do Mestre Nascimento do Passo) e pela capoeira.

Carreira na Capoeira: Iniciou suas práticas aos 13 anos (1985) no Centro de Capoeira Angola Mãe sob o ensino de Mestre Sapo. Formou-se Contramestra em2011 e foi diplomada e reconhecida internacionalmente como Mestra de Capoeira Angola em 2016 e 2019.

Pionorismo Internacional e Atuação: Em 1997, tornou-se a primeira mulher brasileira a lecionar Capoeira Angola na Europa, lecionando por anos na Alemanha e na Itália antes de retornar ao Brasil em 2004 para atuar em eventos e projetos voltados a mulheres capoeiristas.

MARACATU CRUZEIRO DO FORTE - Origem e Fundação: Fundado em 1929 no bairro dos Torrões (zona oeste do Recife), o grupo surgiu espontaneamente do convívio de trabalhadores rurais da Zona da Mata Norte. Com quase um século de atuação, é uma referência histórica do Maracatu de Baque Solto no ambiente urbano.

Sede e Ação Sociocultural: Atualmente localizado no bairro do Cordeiro, o grupo desenvolve um trabalho sociocultural focado na formação de artesãos. Ensina jovens e adultos a bordar e confeccionar os figurinos, adereços e golas tradicionais, capacitando membros da comunidade para o mercado de trabalho.

Trajetória e Conquistas: Sob a liderança de Maria da Conceição Silva, o grupo reúne mais de 150 componentes. É uma das agremiações de maior destaque do Carnaval pernambucano, somando 15 títulos de campeão — sendo 12 vitórias consecutivas entre os anos de 2002 e 2013.

GRES PRETO VELHO - Origem e Identidade: Fundado em 24 de dezembro de 1974 pela tradicional Família Lobo e por lideranças como Mestre Zuza, o Preto Velho fica no Sítio Histórico de Olinda (Alto da Sé). É a única escola de samba em atividade contínua no município, representando mais de 50 anos de afirmação do samba e das tradições afro-brasileiras na cidade.

Formação e Transmissão de Saberes: Funciona como um espaço comunitário de ensino contínuo de percussão, dança, confecção artesanal de indumentárias e gestão cultural. A famosa "Bateria Nota 10" é o principal símbolo desse processo educativo que envolve crianças, jovens e adultos, principalmente em ensaios e oficinas aos domingos.

BARRACÃO DE MÃE NADJA - Origem e Identidade: Fundado em 1996 no bairro do Ibura (Recife) por Mametu Baléginam Nadja de Angola Goméia, o Terreiro Kaiangu Kia Itembu (Abassá Axé Oyá Balé Omim) é um centro sagrado do Candomblé de Nação Angola (matriz Bantu). Atua como um espaço de resistência, fé, apoio social e memória ancestral para a comunidade periférica local.

Metodologia de "Escola Viva": O terreiro funciona como uma escola viva de formação comunitária. A transmissão do conhecimento ocorre na prática diária e no convívio intergeracional por meio da oralidade, observação, repetição ritual e mutirões.

MESTRE JOÃO PAULO - Trajetória e Título: Nascido em Vicência e radicado em Nazaré da Mata (Mata Norte de PE), Mestre João Paulo tem mais de 40 anos dedicados ao Maracatu de Baque Solto (Maracatu Rural). Ficou popularmente conhecido como o "Papa do Maracatu" após o lançamento de seu primeiro CD em 2002, sendo reconhecido como um dos maiores poetas e mestres de sua geração.

Mestria e Transmissão de Saberes: É fundador, presidente e mestre do Maracatu Leão Misterioso (criado em 1990). Ensina de forma oral e prática a novos brincantes tanto a poética (versos, rimas e improvisos) quanto o artesanato e adereços (confecção de golas, chapéus, surrões e guiadas). Serviu de inspiração e formação para diversos outros mestres da cultura popular.

TERREIRO DE MÃE AMARA - Origem e Identidade: Fundado em 18 de junho de 1945 por Mãe Amara de Xangô Aganjú (Obá Meji) no bairro de Dois Unidos (Recife-PE), possui mais de 80 anos de atuação contínua na preservação, salvaguarda e difusão da tradição e cultura nagô em Pernambuco.

Liderança Matriarcal e Transmissão: Organizado sob uma estrutura organizacional e familiar matriarcal, a liderança e os saberes ancestrais são mantidos por suas descendentes diretas (como a Yalorixá Maria Helena Mendes Sampaio e suas sucessoras), que garantem a formação contínua por meio da oralidade e vivência ritual.

Projetos Culturais e Políticos: É berço e articulador de iniciativas culturais e sociais como o Afoxé Oyá Alaxé, o Balé Nagô Ajô, o Coral Amadê Korin Nagô e espetáculos formativos. Destaca-se também pelo pioneirismo ao criar a primeira Rede de Mulheres de Terreiro do Brasil, fortalecendo a liderança feminina e o combate ao racismo religioso.

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