Lucas Bezerra e Geraldo Azevedo cultivam novos sentidos de Totonho em novo single
"Rosa da Matinha" é o segundo single do disco "Eu mandei meu amor pro espaço", em que Lucas Bezerra interpreta nove canções do paraibano Totonho
Publicado: 24/07/2026 às 13:10
Lucas Bezerra e Geraldo Azevedo, juntos para regravar Totonho (Thayane Massopust)
A parceria entre Lucas Bezerra e Geraldo Azevedo, que se uniram no esforço de regravar “Rosa da Matinha”, do paraibano Totonho, é mais uma evidência de que o compositor monteirense merece a alcunha de “mestre” com a qual novos artistas, notadamente nos ciclos da nova canção nordestina, a ele têm se referido nos últimos anos. Disponível em todas as plataformas digitais a partir desta sexta-feira (24), a regravação é o segundo single do disco “Eu mandei meu amor pro espaço”, que apresentará ao público nove releituras da obra de Totonho pelo olhar de Bezerra, de janelas abertas para as paisagens mais remansosas do cenário poético de Totonho.
Cearense de Orós, terra de Fagner, Bezerra faz parte desta geração que idolatra o paraibano, de cuja obra se aproximou ao se mudar para João Pessoa, por motivos acadêmicos. Em sua pisada eletrônica, Totonho reinventa funk, samba, ijexá e rock, com sua poesia cortante, que dialoga com os problemas contemporâneos de sua experiência como homem preto, nordestino, periférico e artista na modernidade líquida do capitalismo. Toda a deferência ao paraibano possivelmente se deve a isso mesmo: a sua extraordinária capacidade de moer a cana e servir um caldo com a mais comum experiência brasileira no século XXI.
Pode ser a agrura de se manter lúcido neste tempo acelerado em que nos esquecemos até mesmo de prestar atenção a suas músicas, pode ser a solidão de estar fadado à profundidade do açude de Orós, cujas águas fatalmente despedaçaram amores de papel-crepom. “Eu fiz uma cara feia/ Acho que assustei você/Adeus Rosa da Matinha/Nosso amor era crepom/Deu uma chuva da moléstia/Só ficou o gosto bom”, diz trecho de "Rosa da Matinha".
Com seus trocadilhos, aliterações e assonâncias de parnasiano com enfeites de rebelde, Totonho corta uma realidade de literalidades preguiçosas, mas com seriedade zero, do tipo que chamaria os formalismos poéticos para dançar funk sem a menor cerimônia: “amar e amassar a lataria”. Com sua sutileza, contudo, Bezerra arranca as roupas desleixadas e deixa Totonho completamente nu.
Limpa ironias e silencia o deboche de quem precisou se defender sozinho desde muito cedo. Na solidão da ferida, Lucas explora pelo minimalismo as quinas da sala vazia, denunciada pela futura capa do disco, da designer Iramaya Rocha, paraibana radicada no Recife.
Para revelar as terras mais molhadas de Totonho, Lucas convoca Geraldo Azevedo – talvez, o mais mélico dos cancionistas nordestinos de sua geração. Os violões estão bem gravados e a produção musical de Arthur Foschi é competente em criar um ambiente sonoro confortável para a linguagem da dupla. Abelhas, folhas ao vento, águas de Petrolina e de Orós para acomodar o amor de Totonho em uma rede, niná-lo, consolá-lo, acolhê-lo.
Segundo Bezerra, a escolha pelo nome de Azevedo para a regravação veio de uma relação de anos entre os dois mestres. “Tê-lo cantando 'Rosa da Matinha' é uma alegria de encher o coração. Vê-lo entrar na canção com aquele jeito atento, delicado, de quem cuida de cada palavra enquanto canta, foi uma das emoções mais especiais de fazer esse disco”, pontua o cearense.
No final da gravação, Geraldinho diz que tem um filho chamado “Lucas”. Mentira, tem dois. Em sua doçura, Bezerra defende a posição do Sertão na música brasileira, em sua capacidade de florescer ao sinal da primeira chuva. Amar é ter fé no chão seco, Totonho. Disso o sertanejo entende.
Expectativa
"O Arqueiro Zen", primeiro single de "Eu Mandei meu Amor pro Espaço", havia sido lançado no dia 8 de julho, com participação da boa cantora Rita Benneditto, já consagrada pelos bons anos de rodagem em defesa da música popular brasileira. O disco tem previsão de lançamento para a primeira quinzena de agosto.
Por hora, confira a ficha técnica de "Rosa da Matinha":
Vozes: Lucas Bezerra e Geraldo Azevedo
Violão e programações: Arthus Fochi
Acordeon: Lucas Dan
Clarinete: Morten Lind
Triângulo: Maju Nunes
Baixo elétrico: Pablo Arruda
Percussões: Rafa Barros
Flauta transversal: Yuri Villar
Arranjo: Arthus Fochi
Produção musical: Arthus Fochi
Direção musical: Arthus Fochi e Lucas Bezerra
Direção artística: Laurita Dias
Edição de áudio: Arthus Fochi, Gui Marques e Lucas Bezerra
Mixagem e masterização: Gui Marques (Estúdio Frigideira, Glória, Rio de Janeiro)
Projeto gráfico, capa e identidade visual: Iramaya Rocha
Fotos (divulgação e capa): Thayane Massopust
Lançamento: Cantores del Mundo
Assessoria de imprensa: Wagner Rodolfo
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