De volta ao Recife, Marco Nanini apresenta a peça 'Fim de Partida' e relembra infância na cidade
Marco Nanini retorna ao Recife com "Fim de Partida", clássico de Samuel Beckett, ao lado de Guilherme Weber em quatro sessões a partir desta quinta-feira (23)
Publicado: 22/07/2026 às 16:40
Guilherme Weber e Marco Nanini, parceiros de palco em "Fim de Partida", durante passagem pelo Recife (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
"Recife tem encantos mil", já dizia Reginaldo Rossi. Para Marco Nanini, um deles tem gosto de pitomba. Eternizado nos corações dos brasileiros como Lineu, de “A Grande Família”, o ator nasceu na capital pernambucana em 1948 e viveu no bairro do Pina até os dez anos.
As pequenas e doces lembranças da infância, como o sabor das pitombas colhidas pelo caminho, ainda hoje são suficientes para fazê-lo abrir um largo sorriso assim que escuta o nome do Recife. Há décadas radicado no Rio de Janeiro, Nanini ainda nutre uma relação íntima com a cidade natal. Quando a reencontra por meio do teatro, fazendo aquilo que mais ama, o retorno ganha um significado ainda mais especial, como acontece desta vez.
Em parceria com Guilherme Weber, Nanini sobe ao palco do Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, com a adaptação do espetáculo “Fim de Partida”, clássico do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, entre esta quinta-feira (23) e o domingo (26).
As sessões acontecem às 20h, exceto a última, marcada para as 19h, todas com ingressos à venda no site do teatro a partir de R$ 75 (meia). Seis décadas após sua estreia, a peça segue lembrando que as grandes inquietações humanas continuam tão atuais quanto inevitáveis.
“Eu gostaria de ter atuado nela há muito tempo, mas eu era jovem demais. Corria o risco de virar uma caricatura”, conta Nanini, aos 78 anos, em entrevista ao Diario. “Então esperei e estou gostando muito, porque é um texto espetacular que permite inúmeras interpretações e reflexões”, continua.
A oportunidade de finalmente concretizar esse desejo surgiu a partir do convite de Guilherme Weber, com quem o ator recifense já havia contracenado em “Os Solitários” (2002) e “A Morte do Caixeiro Viajante” (2004).
Em cena, Nanini dá vida a Hamm, enquanto Weber é Clov. Os dois têm uma relação de dependência física e emocional atravessada pela violência, pela crueldade cotidiana e por um humor tão ácido quanto melancólico. Confinados em um espaço claustrofóbico, a dupla habita um mundo esvaziado de sentido, onde a rotina se sustenta por repetições, disputas de poder e uma espera interminável que jamais encontra resolução.
Na visão de Weber, Hamm é uma figura que parecia destinada a Nanini. “Beckett escrevia pensando em palhaços, inspirado por Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. Nanini é um grande comediante brasileiro, então esse encontro entre ator e personagem é realmente muito raro”, afirma. A direção ficou a cargo de Rodrigo Portella, que vive um momento de destaque no teatro brasileiro após trabalhos elogiados, como “Tom na Fazenda”.
Enquanto Hamm permanece preso a uma cadeira de rodas e Nagg e Nell estão confinados em latas de lixo, Clov é o único personagem em movimento. Mas, apesar da liberdade física que possui, ele também está aprisionado.
“Essa é uma das grandes perguntas do teatro moderno: por que ele não parte? E a resposta talvez diga muito sobre todos nós, sobre aquilo que nos impede de romper ciclos e sobre como, muitas vezes, nos tornamos prisioneiros das nossas próprias escolhas”, indaga Weber, que também mantém uma relação afetiva com Pernambuco a partir do cinema, após participar de “Árido Movie” (2005), de Lírio Ferreira.
“Fim de Partida” promove outros reencontros importantes na trajetória de Marco Nanini, como o de Helena Ignez, sua colega em “Salomé” (1968), e Ary França, com quem dividiu o elenco de “O Burguês Ridículo” (1996). “É muito bonito rever essas pessoas tantos anos depois”, destaca.
Mas é o reencontro com o Recife que faz o ator abrir o maior sorriso. Entre as recordações que tem da cidade está uma cena ao lado dos pais, Dante Nanini e Maria Esmeralcy, na varanda do antigo Grande Hotel do Recife, onde seu pai trabalhava como gerente. “Lembro de apontar para a lua e daquele instante ficar gravado na minha memória. É uma lembrança muito bonita, que representa meu carinho pela cidade”, diz.
- Peça 'Espetinho de Coração de Frango' propõe nova forma de viver o teatro no Recife
- Morre Luiz Carlos Barreto, produtor lendário do cinema brasileiro, aos 98 anos
- Filha de Chico Science, LOUISE lança 1º EP e consolida trabalho autoral na mistura de trip-hop, R&B e rock
- Atriz do histórico grupo Vivencial, Auricéia Fraga celebra 80 anos no Recife com peça autobiográfica