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CRÍTICA

Com o imponente ‘A Odisseia’, Christopher Nolan reivindica para si o retorno do épico hollywoodiano

Elenco gigantesco, produção megalomaníaca e equilíbrio entre ação prática e fantasia sombria são destaques na nova empreitada ambiciosa do diretor de "A Origem", "Interestelar" e "Oppenheimer"

André Guerra

Publicado: 16/07/2026 às 06:00

Matt Damon interpreta Odisseu como um herói quebrado e atormentado pela guerra/Universal/Divulgação

Matt Damon interpreta Odisseu como um herói quebrado e atormentado pela guerra (Universal/Divulgação)

Quando não há casa para voltar, retornar ao lar é uma tarefa para os deuses. Ou para os homens que se equiparam a eles. Eis o princípio poético e emocional que guia “A Odisseia”, já em cartaz nos cinemas e a primeira empreitada de Christopher Nolan após finalmente vencer o Oscar por “Oppenheimer”, em 2024.

Desafiando sua já usual escala megalomaníaca, o diretor e roteirista adapta o poema homônimo de Homero (escrito em meados do século VIII a.C) e conclama para si a responsabilidade de resgatar a escala e a ambição dos grandes épicos hollywoodianos. E, levando em conta o resultado, a história pode estar sendo escrita.

“A Odisseia” acompanha a saga de Odisseu (vivido por Matt Damon) tentando voltar para casa, na Ilha de Ítaca, após vencer a Guerra de Troia. Enquanto ele e seus homens enfrentam vários perigos — desafiando a fúria dos deuses em terra e nos mares —, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) aguarda seu retorno junto com o filho Telêmaco (Tom Holland), sendo assediada constantemente por dezenas de pretendentes. O que o protagonista um dia chamou de casa pode ser, na verdade, apenas uma projeção.

O enredo já foi levado às telas em “Ulysses” (1954), de Mario Camerini, com Kirk Douglas no papel principal. Em “A Odisseia”, no entanto, Christopher Nolan não só inclui muito mais elementos na trama como expande algumas das grandes situações de ação dessa jornada. Remetendo à estrutura fragmentada célebre da sua filmografia, ele intercala diferentes linhas de tempo para culminar todas em uma grande sequência climática que, aqui, toma quase todos os 45 minutos finais das quase três horas de duração.

A grife de ser o primeiro longa filmado inteiramente com câmeras IMAX, formato de alta definição do qual Nolan tem sido o principal embaixador desde “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008), representa apenas parte do escopo de “A Odisseia”. As batidas incessantes e intensas da trilha sonora de Ludwig Göransson marcam a imponência dos cenários reais de países como Grécia, Itália, Escócia, Islândia e Marrocos, nos quais a produção orçada em US$250 milhões.

A montagem de Jennifer Lame mergulha o espectador no longo devaneio que permeia a jornada de Odisseu, visto pela primeira vez já perdido e tentando recobrar a memória com a ajuda de Calypso (Charlize Theron) e assombrado por visões de Athena (Zendaya, praticamente reprisando seu papel do primeiro "Duna").

Do elenco gigantesco, um dos principais destaques é a atuação reptiliana de Robert Pattinson, no papel de Antínoo, pretendente mais ganancioso ao trono. Himeth Patel, como Euríloco, segundo em comando de Odisseu, é o único possível de distinguir de todos os homens que seguem o líder, que funcionam mais como um conjunto sólido de rostos reconhecíveis do que propriamente personagens.

Jon Bernthal faz ótima figura no papel de Menelau, o rei de Esparta, enquanto Lupita Nyong'o, como sua esposa Helena, termina subaproveitada. Mia Goth, que vive a serva venenosa Melantho, ainda mais. Elliot Page, como o soldado Sinon, é mais importante como nome do que como personagem. E da participação de Benny Safdie (Agamemnon) mal é possível se ver o rosto.

John Leguizamo, por outro lado, que interpreta o servo fiel Eumeu, tem a mais comovente atuação aqui, enquanto Samantha Morton desestabiliza a todos como uma feiticeira misteriosa na possível sequência mais surpreendente de todo o filme.

Mesmo que o regresso do personagem seja essencialmente episódico (a guerra, o ciclope, os gigantes, o mundo de Hades) e cheio de elementos concretos de perigo, Nolan faz questão de reforçar o tempo todo que o grande conflito do protagonista é interno. A sombra dos mortos deixados pelo caminho, a grandiloquência de se comparar aos deuses e a angústia inerente à liderança de um projeto de violência.

Troque-se, assim, o Cavalo de Troia pela bomba atômica e “A Odisseia” é um espelho evidente de “Oppenheimer”, que, não à toa, fazia referência ao mito grego de Prometeu já na primeira cena.

O apego aos processos analógicos da imagem já atrapalhou muito os filmes de Nolan, mas este se beneficia particularmente de sua referência dos grandes épicos históricos. Ainda que ele faça o possível com efeitos práticos para dar credibilidade à forma, sua abordagem não se esquiva do exagero visual e sonoro. Há cenas de puro cinema de horror em “A Odisseia” e, ao se permitir experimentar e inflar tudo, o diretor se mostra mais seguro e vigoroso do que nunca.

Ironicamente, pode ter sido justamente Christopher Nolan, conhecido por negar a fantasia e o absurdo, a colocar de volta, com sua convicção e seriedade, alguns dos mais bizarros e antigos elementos da história oral no patamar das superproduções mais esperadas do ano. E, certamente, já é um dos melhores.

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