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CRÍTICA

Remake de ‘Moana’ parece o primeiro grande lançamento feito por inteligência artificial

Adaptação de uma das animações de maior sucesso recente da Disney recria praticamente plano a plano o filme original

André Guerra

Publicado: 08/07/2026 às 18:14

Catherine Laga'aia interpreta a protagonista na versão live-action/Disney/Divulgação

Catherine Laga'aia interpreta a protagonista na versão live-action (Disney/Divulgação)

Uma das marcas originais mais poderosas que a Disney lançou na última década, “Moana” deu ao estúdio a personagem feminina não-branca de maior impacto cultural até hoje. Juntas, as duas animações já lançadas dessa franquia — respectivamente em 2016 e 2024 — arrecadaram mais de $ 1,7 bilhão na bilheteria mundial, além dos números colossais de acesso nas plataformas de streaming e dos incontáveis produtos licenciados. Um terceiro longa animado também já foi confirmado.

Ainda assim, esta versão live-action homônima, que entra em cartaz nesta quinta-feira (9), revela uma exploração abertamente mercadológica de um conceito que mal teve tempo para se consolidar no cânone, quiçá para gerar saudade.

Há mais de uma década, a Disney normalizou que o carro chefe de seus lançamentos família seriam as continuações e as releituras, mas esta versão live-action é, de todas as muitas feitas até aqui, aquela que esperou menos tempo para acontecer. O intervalo que separa a animação “Moana” do filme de 2026 é de apenas 10 anos (o recorde anterior era de “Mulan”, de 2020, lançado 22 anos após o original).

Piora: quando foi sacramentada a produção do remake, a continuação “Moana 2” — inicialmente planejada para ser uma minissérie animada da Disney+ — acabou se tornando um filme com estreia tradicional nos cinemas, em 2024, por decisão de Bob Iger, então CEO da empresa.

O resultado é a overdose de “Moana”, que banaliza, inclusive, seu símbolo representativo como história de uma heroína de origem polinésia. Não houve qualquer espaço criativo para que os produtores e roteiristas pensassem em um motivo criativamente plausível para reencenar a trama com atores de verdade, exceto a razão comercial.

A história não altera uma vírgula sequer — e os enquadramentos também não. Moana (interpretada pela cantora australiana Catherine Laga'aia) vive na ilha de Motunui com sua família e seu povo, a salvo dos perigos do oceano. Incentivada pela avó, a jovem desafia seu pai e decide atravessar os arrecifes para salvar seu lar da escuridão que se aproxima, e que está provocando escassez de comida e pode destruir toda a vida no lugar. Para devolver o coração roubado de uma deusa, ela precisa encontrar o semideus Maui (Dwayne Johnson, reprisando o papel que antes assinava como dublador).

O diretor Thomas Kail teve aqui, portanto, o mais ingrato de todos os trabalhos que um realizador pode imaginar. Jared Bush, responsável pela escrita das duas animações, leva aqui o possível crédito de roteirista mais fácil da história do cinema. Não há um único plano neste “Moana” que pareça pensado para dar personalidade própria a ele, e a sensação constante ao longo da projeção é de estar diante do primeiro filme de estúdio feito integralmente por inteligência artificial.

 


AGRAVAMENTO DA CRISE CRIATIVA

Na segunda metade dos anos 2010, o sucesso gradativamente maior dos reboots, como “Cinderella” (2015), “Mogli: O Menino Lobo” (2016), “A Bela e a Fera” (2017), “Aladdin” (2019)e, principalmente, “O Rei Leão” (2019, o mais lucrativo de todos), foi possível notar o aumento da preocupação com a fidelidade. Algumas exceções notáveis buscaram reinterpretar seus universos, caso de “Dumbo” (2019) e “Cruella” (2021).

Outras seguiram baseando todo o seu apelo na nostalgia da plateia e adotaram o estilo copiar/colar ao máximo, para evitar descontentamentos. “A Pequena Sereia” (2023), foi um deles e, dadas as similaridades entre ele e “Moana”, pode-se dizer que ali estava um prenúncio do que estava por vir.

Pensando com a lógica familiar da Disney, é compreensível que títulos canônicos exerçam uma sombra grande demais para que os realizadores ousem fazer alterações severas. E mesmo eles, em particular o bonito “A Bela e a Fera”, encontraram meios de atualizar ou simplesmente adaptar a linguagem da caricatura do desenho para o fotorrealismo.

“Moana”, por outro lado, não parece ter passado por qualquer crivo artístico ou ter sido minimamente debatido em uma mesa de roteiristas, mas por um grupo inteiramente composto pelos executivos da contabilidade. É, talvez, a definição mais cristalina de subproduto que a máquina de Hollywood poderia regurgitar. Os interesses aqui são mais claros do que o oceano que carrega a heroína de um lado para o outro.

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