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MÚSICA

Com o fenômeno de 'Confessions II', Madonna reassume a coroa da pista pop

Artista mobilizou as estruturas do pop novamente com álbum que mescla homenagem e reinvenções; 'One Step Away', 'Bring Your Love' e 'Bizarre' se destacam entre as 16 faixas

André Guerra

Publicado: 06/07/2026 às 19:40

Madonna reivindica sua coroa de rainha do pop em disco que concilia legado e reinvenção/Warner Records/Divulgação

Madonna reivindica sua coroa de rainha do pop em disco que concilia legado e reinvenção (Warner Records/Divulgação)

Na pista de dança da era dos distanciamentos e das indiferenças, um portal se abre — dele emerge uma explosão que tem que ser sentida, vivida e, talvez, sublimada para ser compreendida. É nesse espaço difícil de definir, mas fácil de perceber, que Madonna trouxe “Confessions II”, no qual não apenas retoma o impacto de um legado criativo, mas reequaciona o seu significado para um novo momento do pop.

Já disponível nas plataformas digitais, o disco de 16 faixas é uma sequência conceitual de um dos mais emblemáticos trabalhos da artista, e o resultado mostra um turbilhão de sentimentos de diferentes ordens e cores, mas uma só força motriz.

Quando lançou “Confessions on the Dance Floor”, em 2005, Madonna retornou às graças da crítica após a repercussão aquém do esperado do mais austero e engajado “American Life”. O tempo e suas reavaliações se encarregaram de conferir àquele projeto um status de divisor de águas na carreira da cantora e no gênero musical em si. “Get Together”, “Sorry” e, principalmente, “Hung Up” entraram para o cânone e sedimentaram uma celebração da pista de dança em um período de confluência de novos ícones do pop que, por diferentes razões, não existiriam sem beber na fonte de sua obra.

Agora, com “Confessions II”, o desafio é ainda maior. Não somente diversos novos ícones estão em disputa como as formas de culto, adoração, acesso e escuta passaram por alterações severas — nem todas para melhor. Atravessar as gerações nessa dimensão tão reconhecida não exige apenas a celebração efusiva do ato performático, conceito basilar na consolidação do primeiro “Confessions”, mas também uma dose considerável de reinvenção. E, por meio de várias das músicas novas que Madonna agrega aqui, é perfeitamente plausível atestar que ela o fez.

Do ponto de vista do lançamento, o seu reencontro com o produtor britânico Stuart Price (responsável pelo álbum de 2005) teve uma repercussão significativa no mercado físico, com edições especiais para colecionadores e venda antecipada em distintos formatos até quatro dias antes da estreia oficial, em 3 de julho, de acordo com relatos registrados nas redes sociais.

A antecipação construída foi ainda mais poderosa do que o imaginado, sobretudo pelo impacto visual do clipe de “Bring Your Love”, que contou com a participação de Sabrina Carpenter e da atriz Julia Garner — escolhida para dar vida a Madonna em uma cinebiografia (ainda sem data).

É sintomático que “I Feel So Free” abra o disco, com sua atmosfera etérea, rapidamente embalada pelas batidas eletrônicas propiciadas pela marcante participação da cantora venezuelana Arca, que assina como produtora adicional. O ritmo segue firme com a agilidade de “Good for the Soul”, mas é com “One Step Away”, a terceira faixa, que Madonna coloca o coração temático e melódico do disco na mesa.

“As pessoas pensam que música de dança é superficial, mas elas entenderam tudo errado. A dança não é só um lugar, é um espaço ritualístico de transição em que o movimento substitui a linguagem”, diz a artista ainda na introdução, demonstrando como sua pulsão criativa, viva como nunca, está conectada a um escopo musical mais elástico; “Confessions II” é forte sozinho e como reinserção no cânone, mas cresce ainda mais quando visto como a catarse de um conjunto discográfico.

Com a colaboração do DJ holandês Martin Garrix, Madonna expande ainda mais as fronteiras entre o seu pop clássico e as batidas contemporâneas em “Bizarre”, uma das faixas mais contagiantes do álbum. Já “Fragile”, apesar de interpretada como canção de luto pela morte de seus dois irmãos (Anthony e Christopher Ciccone, falecidos, respectivamente, em 2023 e 2024), tem sua beleza na universalidade das ideias de perda e de emoções vulneráveis.

O olhar retrospectivo de Madonna impactou o Brasil há dois anos com a turnê "Celebration", que explodiu Copacabana em transgressão e ousadia. Aqui, porém, esse norte musical assume uma coerência que vem sendo merecidamente reconhecida como um dos ápices dentre todos os seus 15 discos de estúdio. 

Não deixa de surpreender que, nessa confluência elétrica de tempos presente em “Confessions II”, ela mantenha o pique ao longo das faixas que seguem, com uma média de acertos ainda maior do que na primeira parte espiritual do projeto. E, como foi o caso lá atrás, o disco tem tudo para ganhar ainda mais tração com o tempo. Madonna brilha nas criações, sem dúvida. Mas estoura, de fato, nas reinvenções.

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