No suspense ‘Eclipse’, investigação de duas irmãs mostra que rede de violência pode estar ao lado
Dirigido e estrelado por Djin Sganzerla, ‘Eclipse’ narra história de irmãs que investigam uma perturbadora rede de violência sexual
Publicado: 19/06/2026 às 05:00
Além de dirigir e coescrever, Djin Sganzerla também estrela a produção ao lado de Lian Gaia (Divulgação)
Abraçar o cinema de gênero como veículo para transmitir uma mensagem urgente e pessoal foi a motivação principal por trás de “Eclipse”, em cartaz no Recife, no Cinema da Fundação. Em seu segundo longa-metragem como diretora, Djin Sganzerla expande seu escopo criativo com uma história que busca conciliar uma abordagem metafórica e sensorial com uma narrativa de suspense sobre abuso e violência.
A trama é protagonizada pela própria cineasta, que também dirigiu e estrelou o drama “Mulher Oceano”, de 2020. Aqui, ela interpreta Cleo, uma astrônoma grávida, casada com Tony (Sérgio Guizé), que é surpreendida ao conhecer uma meia-irmã de origem indígena, Nalu (Lian Gaia). O encontro entre elas traz à tona memórias difíceis que acabam se conectando a uma revelação assustadora sobre o submundo da deep web.
Em conversa com o Diario, a realizadora revela que, com essa premissa, sentia a necessidade de se conectar com um público mais amplo. “Queria muito que fosse ao mesmo tempo um filme que prendesse a atenção do espectador desde o começo, mas que também fosse um espaço de reflexões fortes. ‘Eclipse’ foi pensado de maneira bastante meticulosa para que o gênero funcione a serviço desses temas”, explica Djin, filha do saudoso cineasta Rogério Sganzerla com a atriz Helena Ignez, presente em uma breve cena do filme.
O roteiro, escrito em parceria com Vana Medeiros, passou por um processo de elaboração de mais de um ano. São diversos polos de interesse que buscam articulação dentro dele: o primeiro é esse encontro de duas mulheres de realidades tão diferentes, mas que precisam se unir em função de algo maior que ambas. O segundo, desencadeado a partir das revelações sobre o personagem de Sérgio Guizé, ganha força no ato final, quando “Eclipse” deixa de lado suas alusões contemplativas para aderir a um clima de ação policial.
Assim como em “Mulher Oceano”, Djin explora sensações de descoberta a partir do universo feminino. Mas, enquanto naquele filme o tratamento era mais existencial e instintivo, agora tudo ganha uma pulsão mais prática. “Os dois filmes possuem vários espelhamentos. Neste, eu queria muito evidenciar essa sororidade entre as duas irmãs que mal se conhecem e que descobrem uma força maior do que elas mesmas sozinhas”, reflete a diretora e atriz.
Ao desconstruir a vida aparentemente perfeita dessa protagonista e colocá-la diante de uma verdade aterrorizante sobre o mundo masculino, “Eclipse” deixa claro que seu título é literal — dada a profissão da personagem astrônoma — e também simbólico. “Cleo vive uma vida impecável ao lado daquele marido, então me interessava trabalhar esse suspense como um meio de ela sair dessa negação de que há algo muito errado ali. Precisamos tirar esses casos de violência da obscuridade e enfrentá-los”, reforça Djin Sganzerla.
A diretora lembra que as subversões não param por aí. “Nalu contraria toda a expectativa de uma mulher indígena. Ela é tecnológica, impetuosa, parte para cima e se defende quando precisa, chegando até a ensinar sua irmã, em tese mais velha e mais instruída do que ela, a se empoderar”, diz. Em “Eclipse”, a colisão entre essas distintas forças luminosas resulta em um autêntico — e tematicamente rico — exercício de tensão.
Ainda no bate-papo com o Diario, Djin revela que pretende experimentar ainda mais a linguagem cinematográfica em projetos futuros. “A coisa mais bonita da arte é justamente a imprevisibilidade. Se existe uma fórmula, eu não a quero. Espero que, no próximo filme, eu tenha a oportunidade de explorar outras possibilidades, sem a mesma necessidade de comunicar algo com tanta especificidade, como foi o caso aqui”, projeta.