Artista pernambucano Fefa Lins subverte iconografia clássica e cristã em exposição no Recife
Em 'Maravilhosa Catástrofe', artista transmasculino pernambucano revisita a iconografia cristã e a pintura clássica para discutir corpo, desejo e hegemonia nas artes visuais
Publicado: 02/06/2026 às 06:00
Exposição de Fefa Lins no Recife propõe um olhar sobre corpo e representatividade trans na arte brasileira (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
Durante séculos, a pintura europeia funcionou como um tribunal que estabeleceu quais corpos poderiam ser vistos, desejados, santificados ou apagados pela história da arte. Um dos destaques do circuito contemporâneo das artes plásticas, o pernambucano Fefa Lins opera dentro da mesma gramática visual não para repeti-la, mas para subvertê-la a partir de sua vivência como artista transmasculino.
A inserção de corpos dissidentes em espaços antes restritos a convenções hegemônicas de gênero e fé é um dos eixos de “Maravilhosa Catástrofe”, exposição individual de Fefa que abre nesta quarta-feira (3), às 19h, na Galeria Amparo 60, que fica no bairro de Boa Viagem, no Recife.
Sob a premissa de que dor e glória caminham lado a lado, a mostra reúne 15 obras que propõem enxergar a catástrofe como uma ruptura necessária para que novos modos de existir possam surgir. “Pensei em um corpo que só consegue se transformar quando estruturas muito rígidas são rompidas”, explica o artista em entrevista ao Diario.
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Através de um conjunto de 15 obras, Fefa utiliza a pintura a óleo sobre tela como suporte principal, mas também incorpora escombros e destroços urbanos. A técnica aproxima a materialidade da cidade dos processos de quebra, transformação e reconstrução que fundamentam seu trabalho.
Criado em um lar muito católico cercado por imagens de santos e da Santa Ceia, Fefa Lins absorveu a iconografia cristã como sua primeira grande referência do que é pintura. Um exemplo marcante dessa herança é o autorretrato “Encontre a Beleza da Fera (Tormento de Santo Antão)”, inspirado na pintura “Santo Antônio Abade Atormentado por Demônios”, que é conhecida como a mais antiga de Michelangelo.
Nele, Fefa reconstrói o clássico episódio bíblico do santo que resiste aos prazeres da carne no deserto. “No meu quadro, há uma inversão dessa narrativa. Eu coloco meu corpo junto aos demônios, mas não como alguém que resiste. Ele aparece nu, entregue, como se aproveitasse aquela oportunidade”, comenta.
A convivência com imagens cristãs não foi o único ponto de partida dessa relação com a arte. Fefa também cresceu desenhando, ainda que a ideia de se profissionalizar parecesse distante. Sem referências próximas nesse campo, ele só passou a considerar esse caminho durante a graduação em Arquitetura, quando retomou a pintura e começou a se aproximar de outros artistas. Ao fim do curso, a proximidade com o circuito artístico e o desejo por um novo estilo de vida falaram mais alto.
O artista reconhece que a sociedade ainda impõe barreiras para que muitas pessoas vivam suas identidades de modo digno e público, especialmente no mercado de trabalho. Na arte, mesmo diante de contradições e violências, ele encontrou um espaço para afirmar a sensibilidade, a subjetividade e a vulnerabilidade como forças criativas. “Poder trazer minhas questões de gênero para esse processo, tratando como algo importante, é muito significativo para mim”, destaca.
O desejo de pautar novas subjetividades levou a produção de Fefa Lins a ocupar os espaços mais disputados da arte nacional, inserindo a representatividade transmasculina e a dissidência corporal em coleções como as do Masp e da Pinacoteca de São Paulo. “Crescemos e vivemos em uma sociedade com um problema sério de representação de corpos que fogem às normas hegemônicas”, lamenta ele. “Discutir a representação desse corpo e trazer questões que muitas vezes não estão nesses espaços já é, por si só, uma questão política”, completa.