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CRÍTICA

'O Diabo Veste Prada 2' diverte e emociona ao desconstruir mito de Miranda Priestly

Meryl Streep e Anne Hathaway revivem suas icônicas personagens na continuação de 'O Diabo Veste Prada', que concilia fanservice com subversões de expectativa; filme entra em cartaz nesta quinta (30)

André Guerra

Publicado: 29/04/2026 às 07:00

Personagem icônica retorna com mesma personalidade, mas o mundo em volta é que dita as regras/Disney/Divulgação

Personagem icônica retorna com mesma personalidade, mas o mundo em volta é que dita as regras (Disney/Divulgação)

Ícones reinam para sempre. Será mesmo? Reconhecendo o impacto extraordinário do clássico lançado em 2006, de suas personagens e frases de efeito, toda a gigantesca campanha de lançamento de “O Diabo Veste Prada 2”, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta (30), investiu fortemente na dimensão desse legado.

Durante os créditos de abertura, parece que o filme também fará isso, mas a trama que se desdobra a partir daí revela uma surpreendente desconstrução do império idealizado pela plateia, do estado contemporâneo da moda, do jornalismo e, consequentemente, de seus próprios mitos.

Nesta continuação, ambientada 20 anos depois dos eventos do filme anterior, Andy Sachs (vivida por Anne Hathaway) está prestes a ser premiada em um grande evento de jornalismo quando recebe a notícia de sua demissão, assim como a de toda a equipe da empresa em que trabalha. Simultaneamente, Miranda Priestly (Meryl Streep) está envolta em um grande escândalo e enfrenta uma crise sem precedentes na lendária Runway, que, por sua vez, também vive uma fase delicada de mudanças. O caso faz com que Andy seja recontratada, desta vez como editora, para restabelecer a imagem pública da chefe da revista.

Não demora para que “O Diabo Veste Prada 2” comece a subverter as expectativas. A primeira aparição da emblemática personagem central (originalmente inspirada na ex-editora da Vogue e ícone da moda Anna Wintour) é glamourosa, como se espera, mas rapidamente é cortada por uma sucessão de novos conflitos.

Miranda segue com sua personalidade única, mas os tempos não são os mesmos: atirar casacos na mesa da assistente e adjetivar modelos de forma ilimitadamente depreciativa não estão mais na lista de coisas permitidas. Por outro lado, as preocupações jornalísticas da revista também são outras, e suas prioridades estão prestes a piorar.

O diretor David Frankel, que também comandou o primeiro filme, demonstra uma afetuosidade notável pelos personagens, que acabaram ganhando vida muito além da obra que inspirou o original, o livro homônimo da escritora Lauren Weisberger, publicado em 2003. O retorno de Stanley Tucci, no papel de Nigel, braço direito de Miranda, e de Emily Blunt como Emily — agora uma poderosa executiva de uma marca de luxo — não funciona, porém, apenas como uma piscadela para os fãs. Eles possuem, afinal, funções muito claras dentro dos comentários que o roteiro, novamente escrito por Alice Brosh McKenna, decide tecer (alguns deles, inclusive, em resposta a críticas feitas ao antecessor).

“O Diabo Veste Prada 2” utiliza sua primeira hora para inverter posições que pareciam intransponíveis, revelando um olhar admiravelmente desiludido sobre o sufocamento promovido pelas transformações no meio empresarial, nas artes e na comunicação. Já a segunda metade, que substitui totalmente o conflito inicial envolvendo a imagem de Miranda por algo maior, obriga o próprio filme a reagir estilisticamente e a impor sua energia, contando com a presença prestigiosa de Lady Gaga em uma sequência-chave.

Nessa segunda parte, a narrativa cresce do ponto de vista catártico e se desdobra em situações dramáticas surpreendentemente comoventes, o que não é difícil em um cenário pintado de forma tão apocalíptica. As soluções encontradas para resolver esses problemas, no entanto, soam fáceis e pouco convincentes. Bastam alguns telefonemas para que grandes desfiles surjam na tela, revertendo impasses e conciliando forças antagônicas.

As fragilidades nas costuras de “O Diabo Veste Prada 2” não diminuem sua coragem ao colocar a ponta do salto em diversas feridas do universo que retrata. E fazê-lo sem perder de vista a estrutura que consagrou sua história e seus personagens é, em si, um pequeno triunfo. Senão do cinema, pelo menos da perspicácia.

 

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