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Festival Terreiro Encantado leva matrizes africanas e indígenas ao imaginário infantil na Caixa Cultural Recife

Terceira edição do Terreiro Encantado inicia nesta quinta-feira (16) na Caixa Cultural Recife com programação gratuita de cortejos e espetáculos que levam matrizes africanas e indígenas ao imaginário infantil

Allan Lopes

Publicado: 16/04/2026 às 06:00

Grupo Wadja Fulni-ô/Foto: Kaique Zeferino da Cruz

Grupo Wadja Fulni-ô (Foto: Kaique Zeferino da Cruz)

Em meio à presença cada vez mais intensa das telas no cotidiano das crianças, outros modos de aprender e experimentar o mundo reivindicam espaço. É nesse território que a cultura popular, com seus saberes e estruturas ancestrais, se afirma como linguagem viva na 3ª edição do Terreiro Encantado – Festival para as Infâncias. 

O evento ocupa a Caixa Cultural Recife e espaços urbanos a partir desta quinta-feira (16) até o dia 26, com uma programação gratuita que apresenta diversas linguagens artísticas para fortalecer a presença das matrizes negras e indígenas no imaginário infantil. A agenda completa está disponível no final do texto.

Sob a curadoria do educador, bailarino e pesquisador Orun Santana, o evento busca reposicionar o brincar como elemento estruturante do aprendizado infantil, em vez de mero entretenimento. “A brincadeira é um instrumento de potência e de construção ancestral fundamental”, reforça o idealizador em entrevista ao Diario.

Ao longo dos dias, crianças periféricas e negras poderão se enxergar em artistas que também vieram desses territórios. “Aprender a se ver é um papel mínimo necessário para se compreender o que é cultura brasileira’, diz Orun.

Orun Santana, idealizador do Terreiro Encantado – Festival para as Infâncias - Foto: Natalie Revorêdo
Orun Santana, idealizador do Terreiro Encantado – Festival para as Infâncias (crédito: Foto: Natalie Revorêdo)

Neste ano, o Terreiro Encantando preparou 22 atividades gratuitas, entre espetáculos, oficinas, vivências e cortejos, que ocupam não apenas o palco da Caixa Cultural, mas também as ruas. Um dos pilares da terceira edição é retirar a arte das paredes institucionais e devolvê-la ao asfalto. Para isso, a programação se espalha por locais como a Praça do Arsenal, o Marco Zero e a entrada do próprio equipamento cultural.

“Esse formato entende a rua como elemento que constrói a relação do corpo da criança com o espaço da brincadeira, como território de vivência”, explica o educador. Entre as atrações está o espetáculo "Miudezas", de Carol Levy, que conduz bebês a descobertas sonoras em uma experiência voltada à primeiríssima infância. Já "Tandã", da Cia. Etc., é uma proposta cênica individualizada e sensorial, vivenciada de olhos vendados e originalmente pensada para pessoas cegas.

O festival também promove cortejos de maracatu, rodas de ciranda e vivências indígenas, como a do grupo Wadja Fulni-ô, que se apresenta no Marco Zero no Dia dos Povos Indígenas, celebrado no próximo domingo (19).

O Terreiro Encantado também homenageia duas mulheres que simbolizam o que Orun Santana chama de "pedagogia do terreiro": Vilma Carijós, do Daruê Malungo – centro de educação e cultura situado na comunidade de Chão de Estrelas, no bairro Campina do Barreto, Zona Norte do Recife – e Elvira Gusmão, da Quadrilha Junina Rosalinda Linda Rosa – a mais antiga em atividade em Pernambuco.

Ambas construíram trajetórias de resistência e ensino por meio da transmissão de saberes negros e indígenas às infâncias pernambucanas. “São duas mulheres que fazem da sua ação na vida formar crianças, ancoradas na cultura popular” conta Orun.

Esse mesmo caminho é trilhado pelo educador. Criado no Daruê Malungo, onde entrou como aluno, deu suas primeiras oficinas aos 16 anos e hoje é professor —, ele carrega no corpo e na prática o saber que a tecnologia ancestral transmite.

“A experiência em espaços institucionais ampliou minhas estratégias de criação, permitindo levar esse fazer para outros territórios, como a Caixa Cultural. A presença da cultura popular carrega um modo de entender a vida que nasce do brincar, dessa ludicidade própria da festa”, explica.

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