'O Estrangeiro', nova adaptação do livro de Albert Camus, desafia moral de um protagonista apático
Nova adaptação do clássico atemporal de 'O Estrangeiro', de Albert Camus, que entra em cartaz nesta quinta (16) no país, trazendo história de tribunal com protagonista incapaz de demonstrar sentimentos
Publicado: 15/04/2026 às 06:00
Benjamin Voisin interpreta o personagem complexo que é julgado por um crime terrível (Divulgação/Califórnia Filmes)
Como a notícia da perda de uma mãe pode não abalar em nada as emoções de um filho? Em “O Estrangeiro”, que entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira (16), é exatamente isso o que ocorre quando Meursault (vivido por Benjamin Voisin) recebe um seco telegrama com essa informação. No funeral, ele não apenas parece indiferente a qualquer sentimento como, já no dia seguinte, começa a se relacionar com sua colega de trabalho, Marie (Rebecca Marder). Um encontro na praia com um árabe que empunha uma faca, no entanto, muda totalmente o destino do sujeito peculiar e o leva a um intenso julgamento.
Adaptando um dos mais conhecidos romances da primeira metade do século 20, escrito por Albert Camus e publicado em 1942, o diretor e roteirista francês François Ozon (de “Swimming Pool” e “O Amante Duplo”) resgata muito bem o tom da obra original, tal como sua célebre estrutura. O escritor e filósofo franco-argelino faleceu em 1960, aos 46 anos, e os direitos sobre seu trabalho ficaram com sua viúva, Francine Faure. Ela, reconhecidamente, manteve um controle rígido das publicações desse título em particular.
Após longas tentativas e recusas, a primeira adaptação para o cinema veio sob o comando do italiano Luchino Visconti, em 1967, com Marcello Mastroianni no papel principal. Houve ainda uma versão turca que recebeu o título de “Yazgi” (“Destino”), de 2001, dirigida pelo controverso Zeki Demirkubuz, nunca lançada no Brasil.
Altamente definidor na literatura existencialista e absurdista, Albert Camus propôs, com Meursault, um personagem quase impenetrável. Sua insensibilidade diante do sofrimento alheio, seu absoluto desdém por sentimentalismos mundanos e sua total inércia diante de uma possível punição por seus atos são características que o tornam ao mesmo tempo repelente e intrigante. Essas ideias são apenas o princípio do que François Ozon consegue traduzir em belas imagens durante quase todo “O Estrangeiro”, com o auxílio da fotogenia misteriosa de Benjamin Voisin (com quem já havia feito o romance “Verão de 85”).
Meursault, no livro e no filme, praticamente só demonstra sentimentos e reações físicas imediatas: o sono, o calor, o prazer sexual, a fadiga. Incapaz de mentir, ele desdenha da hipocrisia das relações de afeto, não carrega culpa ou remorso e fala apenas quando sente que há algo importante a dizer. Difícil transpor essa apatia diante do mundo para quase duas horas de protagonismo, mas “O Estrangeiro” se sai bem ao não reproduzir na plateia o tédio de Meursault.
Conhecido por uma cinematografia elegantemente sensual, o diretor foge de um preto e branco estilizado e prefere um registro enigmático, como se sua câmera estivesse tentando sutilmente atravessar o rosto do protagonista sem jamais conseguir alcançá-lo. A presença do jovem galã francês na tela e, sobretudo, o olhar angelical e apaixonado de Rebecca Marder dão a essa versão do livro um caráter talvez menos desafiador do ponto de vista moral do que as encarnações anteriores da trama — e certamente mais aprazível como experiência visual também.
Não significa que “O Estrangeiro” se esquive da estranheza ou do absurdo. A trilha sonora pontua bem a sensação de um componente religioso, de um olhar julgador invisível. A objetividade dos diálogos recupera a incisividade niilista do texto de Camus, enquanto a distância da direção de Ozon se mostra entregue a essa convicção alienante tão presente na obra clássica.
É complicado precisar o quanto esta história encontra adesão em tempos tão ávidos por lições de moral ou mensagens edificantes, mas, entre as muitas coisas que este novo “O Estrangeiro” faz bem, está em despertar curiosidade para que aqueles que desconhecem o livro procurem a obra. Albert Camus, afinal, nunca se esgota.