João Gomes traz artistas do trap à MPB para falar de amor no piseiro: "Sou um romântico no meu tempo"
Em entrevista ao Diario durante gravações de nova campanha para o bombom Sonho de Valsa, João Gomes fala sobre popularidade do seu repertório romântico de piseiro entre ouvintes de diferentes gerações e estilos musicais
Publicado: 09/04/2026 às 14:34
João Gomes diz que pessoas do mundo inteiro precisam conhecer o São João no Nordeste. (Francisco Silva/DP Foto)
Ao mesmo tempo que prepara seu primeiro livro de poesias, João Gomes segue uma agenda com variados compromissos musicais que vêm transformando o piseiro em um espaço democrático para falar de amor. Ela se divide principalmente entre o projeto Dominguinho, que o cantor comanda ao lado dos músicos Jota.pê e Mestrinho, e sua carreira solo, incrementada no último mês pelo lançamento do EP “Trapzeiro”. Esse último trabalho é um recorte do DVD “Meu Piseiro Brasileiro” que destaca as participações de artistas de trap, como MC Cabelinho e L7nnon. As parcerias se somam a outras que o artista vem traçando com nomes como Gilberto Gil e Marisa Monte, evidenciando uma de suas principais façanhas poéticas: ter malícia suficiente para conquistar as novas gerações do pop urbano sem perder a ternura dos veteranos da MPB.
Não é à toa que o cantor foi escolhido para protagonizar a campanha "Declare-se com Sonho de Valsa", em que o bombom de chocolate da Mondelez Brasil incentiva seus fãs a espalhar mensagens de amor com a voz do astro por todo o Brasil. As gravações para o trabalho aconteceram no último mês de março, em um estúdio de Jaboatão do Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, onde o pernambucano conversou com a reportagem do Diario e sobre o sucesso de suas músicas sobre amor, o piseiro e os espaços que ainda almeja alcançar.
Leia a entrevista na íntegra abaixo:
O piseiro pode ser considerado uma música jovem de festa, assim como ritmos urbanos como o funk e o trap, mas, diferente desses últimos gêneros que cantam mais o desapego, você traz letras mais românticas. Você se considera um romântico à moda antiga?
Eu acho que eu sou um romântico no meu tempo. Antigamente, as pessoas não tinham como mandar um meme, mas algumas coisas daquele tempo ainda me tocam. Lembro da primeira vez que dei um buquê de flores para Ary (a influenciadora Ary Mirelli, esposa de João) e ela ficou chorando. Sempre que vem esse presente para a mão dela, ela se emociona. No fim das contas, acho que a mulher precisa se sentir uma princesa. É uma dádiva você poder viver um amor, então que a gente possa aprender com ele e ame de forma brega mesmo.
Esse repertório romântico conta tanto com composições suas, como de parceiros e também com regravações. O que você busca nas músicas na hora de compor e escolher as músicas que vai cantar?
Eu gosto de um repertório para a pessoa ouvir do começo ao fim, que seja dinâmico para o ouvido dela, que não seja tão romântico a ponto de ficar muito doce e que tenha aquele gostinho de malícia, que tenha a alegria, a realidade. Acho que quando a gente está fazendo o repertório é a hora mais importante do disco e Sonho de Valsa tem essa coisa tanto mais docinha, como mais maliciosa tb, tem seu charme, por isso que a gente se juntou pra compor esse repertório.
Você já comentou que o popular também pode ser poético e sofisticado. Ao buscar conciliar essas propostas, você caiu no gosto de muitas tribos, tem até quem diga que hoje você é unanimidade. Acredita que conseguiu derrubar o preconceito com o piseiro? Aonde mais sonha em chegar? ?
Eu acho que os preconceitos sempre vão existir. A gente vê essas barreiras e quer quebrá-las, a gente quer tocar, cantar e mostrar que merece. Por exemplo, eu não tinha habilidade para fazer show no começo, mas eu trabalhei duro para mostrar que eu tinha melhorado à pessoa que não gostava do meu show naquela época. Talvez eu nunca mais encontre essa pessoa, mas encontrei outras pessoas. As coisas que a gente conquista muito se deve a quem não gosta da gente, né? Então, tem que agradecer muito a Deus por estar no meio desse combate eterno, que vai além da carne. Espiritualmente, a gente também tem que vencer sempre o nosso próprio coração e enfrentar tudo com muita fé. Essas pessoas que acabam tendo esse preconceito com a nossa música e o nosso jeito de ser também vão ser criticadas uma hora e que elas possam evoluir igual a gente, com a mesma determinação.
Eu sou muito feliz do jeito que faço música, preciso às vezes de mais um tempinho pra poder escrever as coisas, mas eu acho que no final das contas tudo o que a gente quer é voltar para casa, ver os filhos em segurança, poder sentir a tranquilidade daquele abraço. Eu gosto muito de tocar, de cantar, de estar nas festas e descobrir cada público, mas também gosto muito de estar em casa com minha família, então assim está bom demais. Não falta nada na minha vida, eu só tenho que continuar escrevendo meus sonhos e falando para as pessoas com esse mesmo entusiasmo.
No próximo Rock in Rio você será a primeira atração de piseiro na programação oficial do evento, onde se apresentará ao lado da Orquestra Brasileira. O que representa para você levar um gênero musical nordestino para o festival de rock mais famoso do país?
Fico feliz de chegar cantando piseiro, porque eu sonhei com isso. A gente participou em 2022, mas não era em nenhum dos palcos oficiais. Eu já achava distante, mas para mim estava tudo certo. Eu via a galera me cumprimentando, fiquei muito feliz, mas acho que tocar no palco oficial vai ser um sonho realizado. Eu tenho muito que agradecer a Deus, porque esse ano eu vou tocar em lugares que nunca fui: Austrália, Japão… Encontrar esses brasileiros por lá e dizer que deu certo e continuar incentivando nosso povo a lutar. Aqui em Pernambuco sempre vai ter alguém para dar continuidade a esses sonhos que a gente tem, como Chico Science, Reginaldo (Rossi), Gonzagão. Dei sorte de ter nascido em Pernambuco.
Bad Bunny está fazendo história misturando suas raízes porto-riquenhas à música pop e encantando o mundo com essa autenticidade. Na internet se comenta muito que seu trabalho com o piseiro faz um movimento parecido ao furar bolhas no Brasil. Acredita que esse interesse pela música que transmite identidade é um movimento global atual? Se sim, o forró e o piseiro podem ir ainda mais longe e ganhar o território internacional?
Acho que a turma que vem de fora não conhece o Nordeste do jeito que era pra conhecer, falta ainda um pouco desse carinho das pessoas que fazem a diferença para isso acontecer. A gente tem esse desejo de fazer a galera vir para o Nordeste e conhecer a nossa festa, nosso jeito de dançar, de cantar, porque quando a gente conta para um gringo de fora do Brasil que é do Nordeste é um pouco difícil para entender todo o contexto, mas a gente vai chegar lá. Eles vão ter que vir conhecer o São João, acho que vão se apaixonar e isso vai ser graças a muita gente que está lutando e fazendo um bom trabalho.
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