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CRÍTICA

'Arirang' é um passo em falso do BTS no caminho de volta às origens

Após o hiato mais longo de sua carreira, BTS volta com a ambição de resgatar a sua identidade coreana em 'Arirang', mas escorrega em contradições e falta de personalidade

Allan Lopes

Publicado: 30/03/2026 às 17:51

"Arirang", novo álbum do BTS, fica aquém das expectativas (Foto: AFP/BIGHIT MUSIC/NETFLIX)

Cinco anos e meio. Esse foi o tempo de espera pelo aguardadíssimo novo álbum do grupo sul-coreano BTS, “Arirang”, já disponível nas plataformas digitais. O hiato se alongou primeiro com os projetos solo de cada integrante e depois com o cumprimento do serviço militar obrigatório.

Antes disso, quando “Dynamite” (2020) e “Butter” (2021) explodiram, o septeto deixou de ser um fenômeno restrito ao universo do K-pop para se tornar um titã global. Agora, em meio a tanta expectativa acumulada, surge um paradoxo com “Arirang”. O BTS, que parecia estar dominando a indústria global da música, pode ter sido, na verdade, engolido por ela.

Antes de conquistar o mundo, RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook entenderam que precisavam se reconquistar primeiro. A premissa do trabalho é exaltar as raízes ancestrais do grupo, trazendo no título o nome de uma canção folclórica coreana considerada o hino simbólico do país.

O álbum se esforça para parecer um mergulho na tradição, mas sua espinha dorsal criativa foi construída majoritariamente por compositores e produtores estrangeiros, como o DJ Diplo, Ryan Tedder e Kevin Parker. Isso não seria um problema em um lançamento comum de K-pop, mas soa contraditório quando a obra pretende ser um manifesto de identidade coreana. Não à toa, sua narrativa se mostra frágil e perde fôlego já na primeira metade.

Em um dos poucos trechos emocionantes, a faixa de interlúdio “Nº 29”, que separa as duas partes do álbum, o ouvinte se depara com pouco mais de 98 segundos de silêncio após o som singelo do Sino Sagrado do Rei Seongdeok, que é exatamente o 29º Tesouro Nacional da Coreia. Já a abertura com “Body to Body” também evoca as raízes com o sample de “Gyeonggi Arirang” e alguns versos em coreano. São alguns lampejos de autenticidade, mas que não sustentam um álbum inteiro de 14 músicas.

Na primeira parte, dedicada majoritariamente ao rap, a própria “Body to Body” aposta num formato híbrido que intercala rap e base pop/dance. A inserção da parte pop, um tanto sonolenta, quebra o fluxo da rapline. Sem espaço para acumular tensão, o clímax nem chega a ser ensaiado.

É bem diferente de “Hooligans”, onde Jungkook, V e Jimin justificam o destaque que têm com seus vocais e preparam terreno para o rap. Na sequência, o álbum tropeça em dois problemas distintos: primeiro, “Fya”, cujo autotune excessivo enterra qualquer virtude; depois, a sonolência de “2.0”, que se impõe com uma linha rítmica que não vai a lugar algum.

Única música com videoclipe, “Swim” figura como exceção na segunda parte do álbum, com um rap melódico envolvente e sensual que dialoga com a ideia de afogamento sob a pressão do mundo exterior. As demais faixas carecem de personalidade e se mantêm distantes da promessa de colocar a identidade local como protagonista. “Normal”, “One More Night”, “Please” e “Into The Sun” soam tão genéricas e esquecíveis que sua presença parece ter como única função cumprir uma cota de faixas.

Se o álbum não levasse o nome do BTS, e talvez de outro grupo sul-coreano qualquer, este texto teria outro tom. Se não houvesse um hiato de cinco anos e meio desde o último trabalho, este texto teria outro tom. Mas esses são os fatos. Estes cenários não devem ser desconsiderados quando se analisa o lançamento de um dos grupos mais aclamados da história da música, ainda mais quando o projeto é vendido como um aposta experimental e coreana, mas se revela, no fim, mais um sintoma da indústria que o BTS um dia prometeu subverter.

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