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CRÍTICA

Possível despedida de Fernanda Montenegro do cinema, ‘Velhos Bandidos’ afunda em estética paródica

Direção paródica de 'Velhos Bandidos', já em cartaz nos cinemas, desperdiça o magnetismo e grandeza de Ary Fontoura e Fernanda Montenegro, que anunciou sua possível aposentaria após

André Guerra

Publicado: 27/03/2026 às 18:14

Fernanda Montenegro e Ary Fontoura interpretam casal de aposentados que resolvem roubar um banco/Paris Filmes/Divulgação

Fernanda Montenegro e Ary Fontoura interpretam casal de aposentados que resolvem roubar um banco (Paris Filmes/Divulgação)

Desde que “Velhos Bandidos” foi anunciado como o provável último filme da lendária carreira de Fernanda Montenegro — que revelou sua vontade de se aposentar do cinema e se dedicar às leituras dramatizadas —, não faltam expectativas. A atriz, em plenos e ativos 96 anos, encarou a inusitada ideia de protagonizar uma comédia de assalto, ao lado do igualmente cheio de vida Ary Fontoura (93), com roteiro e direção de seu filho, Cláudio Torres. A ótima ideia, porém, parece ter se revertido muito mais na diversão dos envolvidos do que na da plateia, que já pode assistir e tirar suas próprias conclusões nos cinemas de todo o Brasil.

No enredo, o casal de idosos Marta e Rodolfo arquiteta um insano roubo de banco e, para executar o plano, decide usar os jovens criminosos Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta). Outros fora-da-lei surgem na história para colaborar com a empreitada, em participações pontuais de Vera Fischer, Teca Pereira, Tony Tornado e Reginaldo Faria. No rastro da pitoresca quadrilha está o investigador Oswaldo (Lázaro Ramos), obstinado em encontrar os assaltantes e assombrado por um problema pessoal.

Poucas coisas são mais emocionantes de testemunhar na tela grande hoje do que a força no olhar de Fernanda, que carrega, em cada expressão, a bagagem de mais de 60 anos de história de cinema. Seja em uma marcante cena de encerramento, em dramas como “A Vida Invisível” e “Ainda Estou Aqui”; liderando uma cinebiografia de ação como “Vitória”; ou mesmo na comédia escrachada de “Velhos Bandidos”, a atriz está tão convicta da forte personalidade de Marta que impõe respeito e dignidade a cada uma de suas cenas.

Fernanda, aqui, no entanto, precisa de todo o seu magnetismo e do empenho notável de seu parceiro principal de cena, Ary Fontoura, para vencer o paredão de escolhas equivocadas da direção e do roteiro do filho. Cineasta de longa carreira em comédias, com trabalhos como “Redentor”, “A Mulher Invisível” e “O Homem do Futuro” no currículo, Cláudio Torres filma “Velhos Bandidos” como uma coleção de vinhetas comerciais.

Com raras e espaçadas exceções, a câmera praticamente não descansa, os cortes são os mais rápidos possíveis e a luz é sempre demasiadamente tratada, artificial, sem variações. As piadas e reviravoltas, que poderiam ser espirituosas, são explicadas para a plateia de forma quase ofensiva, e o terceiro ato é completamente afogado pela incapacidade dos roteiristas de escolher um único final para a trama (o filme termina pelo menos três vezes).

 

 

A ingenuidade do modo como o plano de Marta é chamado de genial pela personagem de Bruna Marquezine evidencia o aspecto paródico do filme, que, sim, é pensado para contemplar a maior plateia possível. Mais do que isso: os closes emocionados na interação entre a veterana e a jovem atriz reiteram, sem intenção de sutileza, a emoção genuína de ambas em estarem trabalhando juntas. Simbolicamente, existe em “Velhos Bandidos” um comentário claro sobre sucessão e, no desfecho, há uma cena propositalmente falsa que reforça o espírito melancólico de despedida, misturado à ideia de passagem de bastão.

As intenções são as mais nobres: colocar gerações em ação de igual para igual, celebrar a grandeza de dois dos maiores atores brasileiros vivos e defender a garra e a coragem em qualquer idade, utilizando, para isso, um arquétipo tão divertido quanto o filme de assalto. O saldo, infelizmente, não faz justiça à dimensão dos ídolos que homenageia e tampouco deixa boa impressão para a geração que busca chegar lá.

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