° / °
Viver
CARNAVAL

"Se o Grêmio fechar, não existe mais nenhum lugar em Olinda que eduque e difunda o frevo", diz Maestro Lúcio

Neste dia 9, quando é comemorado o Dia do Frevo, o maestro Lúcio, do Grêmio Henrique Dias, reforça a importância da escola de música para a perpetuação do ritmo

Allan Lopes

Publicado: 09/02/2026 às 06:00

Maestro Lúcio assumiu a regência da orquestra em 2015/Foto: Divulgação

Maestro Lúcio assumiu a regência da orquestra em 2015 (Foto: Divulgação)

Das ruas fervilhantes do Recife, entre o calor da multidão e o estampido das fanfarras, surgiu, no alvorecer do século 20, uma palavra que tentava nomear a agitação do povo no carnaval: “frêvo”, grafada com acento, como foi registrada pelo Jornal Pequeno em 9 de fevereiro de 1907, uma das datas em que é celebrado o Dia do Frevo.

Passados 119 anos, o Grêmio Musical Henrique Dias é parte dessa história, dedicando 72 anos à missão de ensinar o ritmo profissionalmente a jovens de baixa renda que residem nas proximidades da sede, situada entre as ruas Treze de Maio e do Amparo, no Sítio Histórico de Olinda.

Entre os que carregam essa história adiante está Lúcio Henrique Vieira da Silva, o Maestro Lúcio. Aluno da casa desde 1988, quando ingressou com apenas 8 anos, Lúcio trilhou sua trajetória como saxofonista e, em 2015, assumiu a regência da orquestra, tornando-se também diretor musical e professor.

Para ele, a escola sempre caminhou no mesmo compasso que o frevo e até ajudou a criar novas tendências. "Ela ditou seu próprio ritmo, mesmo sabendo que o frevo já nasceu moderno, como relata o Maestro Ademir Araújo", conta o músico em entrevista ao Diario.

Com capacidade para atender até 30 alunos de 9 a 17 anos, o Grêmio é um refúgio educativo cujas salas de aula não param de encher. "Seria ótimo se a banda funcionasse de manhã, tarde e noite, porque é uma escola que, se parar, o que seria dessas crianças da comunidade que não têm condições de pagar um conservatório ou uma passagem para estudar no Recife?", indaga o maestro. O projeto se mantém graças ao trabalho voluntário de ex-alunos e músicos veteranos que ministram as aulas.

Em 1954, o mestre Antônio Pereira fundou a agremiação homenageando o militar Henrique Dias, um dos líderes da Insurreição Pernambucana. Inicialmente, ele visava formar um conjunto musical para atuar profissionalmente. A transformação em espaço de ensino veio mais tarde e gerou a Orquestra Henrique Dias, hoje a primeira formação da casa composta exclusivamente por seus alunos. "Se hoje o Grêmio fechar as portas, não existe mais nenhum lugar em Olinda que eduque, forme e difunda o frevo com crianças e adolescentes. O Grêmio é um templo sagrado de cultura dentro da cidade de Olinda", celebra o Maestro Lúcio.

O recado é endereçado especialmente ao poder público. Atualmente, o Grêmio opera com o CNPJ bloqueado por uma pendência na prestação de contas do carnaval de 2011, segundo a Prefeitura do Recife. Sem acesso direto a editais, a instituição depende de intermediários, que cobram comissões altas. “A produtora fica com 20%, às vezes 50%, e a gente não tem subsistência fora disso”, desabafa o músico. “É um empecilho que trava o Grêmio por dentro”, completa.

A boa notícia é que a Orquestra Henrique Dias está confirmada nas ladeiras de Olinda para este carnaval, acompanhando blocos icônicos como Homem da Meia-Noite, Cariri Olindense, Elefante de Olinda e Boi da Macuca, além do cortejo dos Bonecos Gigantes.

Para animar a folia, o repertório vai além dos frevos tradicionais e inclui pérolas da MPB, como “Chorando e Cantando”, de Geraldo Azevedo, “Cabelo Raspadinho”, do Chiclete com Banana, “Saideira”, do Skank, entre outros. "Tudo que pode ser adaptado para um compasso binário, a gente coloca em ritmo de frevo", explica Lúcio. "É muito bom porque a cada ano a orquestra é mais vista e o carnaval também enriquece com isso", conclui.

Mais de Viver

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas