Mergulho em naufrágios é prejudicado por poluição que pode ter origem em dragagem no Recife
Notícia de fato apresentada ao Ministério Público Federal questiona possível relação de dragagem no Porto do Recife com água turva e lixo; administração portuária nega evidências de impacto e anuncia novo monitoramento
Publicado: 23/09/2026 às 18:05
Dragagem do Porto do Recife deixou água turva em área com naufrágios históricos (Karol Rodrigues/ DP Foto)
Mergulhadores e operadores de mergulho relataram a presença de lixo e água turva na região do Parque dos Naufrágios Artificiais de Pernambuco, no litoral do Recife. A situação foi levada ao Ministério Público Federal (MPF) por meio de uma notícia de fato apresentada na segunda-feira (21), que pede a investigação de uma possível relação com a dragagem do Porto do Recife.
Iniciada em junho, a obra, contratada por R$ 91,2 milhões, retira sedimentos do canal de acesso e dos berços do porto. O material é levado para um ponto de descarte no oceano, a cerca de seis milhas náuticas da costa. Segundo a representação, o limite sul do chamado bota-fora fica a aproximadamente 1,5 quilômetro do Parque dos Naufrágios, onde estão os rebocadores Mercurius, Saveiros e Taurus.
Mergulhadores relatam mudanças nas condições
Advogado e mergulhador, Leonardo Accioly apresentou a notícia de fato ao MPF. Segundo ele, operadores relataram que a presença de lixo e sedimentos teria prejudicado os mergulhos realizados na região.
Leonardo ressalta que não há comprovação de que o lixo encontrado nas praias ou no mar tenha origem na dragagem. Segundo ele, a intenção é justamente investigar essa possibilidade. Segundo ele, a situação provoca “a inviabilidade completa do mergulho na maioria dos naufrágios do parque. A água está turva e com bastante lixo". Ele também considera que há "agressão ao meio ambiente, pois lá existem biomas frágeis".
Entre os elementos apresentados estão relatos de pescadores sobre aumento de plástico nos covos de lagosta, o recolhimento de mais de dez toneladas de resíduos pelo Porto do Recife e registros de lixo em praias. A representação também cita episódio semelhante após uma dragagem realizada em 2022.
O pedido ao MPF inclui a análise dos registros de rastreamento das dragas, relatórios de despejo, estudos de dispersão e monitoramento ambiental, além de uma perícia no Parque dos Naufrágios.
Porto nega impacto comprovado
Em nota, a Coordenadoria de Imprensa do Porto do Recife informou que a dragagem possui autorização da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e segue procedimentos de controle e monitoramento ambiental, incluindo acompanhamento da qualidade da água e dos sedimentos.
A administração afirmou que o material retirado é previamente caracterizado e destinado a uma área autorizada pelos órgãos ambientais. Segundo o Porto, não há evidência técnica confirmada de que a dragagem esteja relacionada à poluição ou à deposição de resíduos sobre os naufrágios.
Diante dos relatos dos mergulhadores, o Porto informou que irá ampliar o monitoramento nas áreas dos principais naufrágios, com análises sobre a presença de resíduos, turbidez e transparência da água. A administração também afirmou ter se reunido recentemente com mergulhadores e operadores para ouvir os relatos e coletar informações sobre as condições observadas.
“Com essa dragagem, os navios terão capacidade de atracar na frente do próprio terminal aqui do porto. Vai trazer maior competitividade e maior conforto para o turista”, explicou o diretor-presidente do Porto do Recife, Wagner Maciel, em depoimento cedido ao Diario no início deste mês de setembro.